2.2.10

Melodias sublimes



Encheu-se de povo o Gil Vicente, faz na próxima quinta-feira uma semana. Não era uma assembleia magna, nem um comício, nem o lago dos cisnes, nem coisa do género. Era Coimbra às ordens da sua consciência, Coimbra a dizer que está viva e que desperta quando é preciso, quando vale a pena, quando tem mesmo que ser. A Saúde em Português convidou vários músicos da região para um concerto de apoio às vítimas no Haiti e desafiou os conimbricenses a estar presentes. A resposta não podia ter sido mais esmagadora: uma casa cheia e um concerto inesquecível.

Naquela noite – com um frio de fazer bater os dentes – não foi a Coimbra resignada, nem a Coimbra da lamúria, que sairam à rua. Um por um, os que estiveram presentes no Gil Vicente – e muitos dos que não puderam estar - foram aqueles que não se conformam: nem com as injustiças, nem com a indiferença. Olhos nos olhos, os olhos que se cruzaram no foyer denunciam uma cidade de gente solidária, gente de convicções, gente que se reconhece e que se surpreende, até, com a sua própria força. Como eu, creio que foram muitos os que, vendo aquela casa cheia, percebendo que foi possível arrecadar mais de sete mil euros para ajuda humanitária, sentiram um calafrio. E perceberam como têm força os que se juntam pelas causas certas.

É sempre assim. Como um vulcão adormecido durante séculos e que, de repente, acorda para arrasar tudo à sua volta. Também como um terramoto, que em escassos segundos põe termo a uma quietude milenar e nos recorda que nada é eterno. Em Coimbra, a resposta ao terramoto no Haiti foi o sobressalto da sua própria natureza: a Coimbra que esteve no Gil Vicente não foi a Coimbra que desiste, foi a Coimbra que acredita; não foi a Coimbra que se apaga no tempo, foi uma Coimbra que se ergue e existe. Uma Coimbra generosa, solidária, mas também uma Coimbra de cultura.

Brigada Victor Jara, Gerações, Cordis, Inês Santos, Rui Pato, entre outros, só uma amostra da cidade das artes que fervilha por aí. Que fervilha e que fervilhará, até ferver de vez e nos lembrar que não é possível “viver habitualmente”, todos os dias, para todo o sempre. Ao contrário do que muito vaticinam, e apesar de tudo, Coimbra mantém uma especial capacidade de nos surpreender. E lembra-nos que o silêncio é o leito onde se deitam as melodias mais sublimes.

25.1.10

Responsabilidades


Parece que vai fechar a delegação de Coimbra da agência Lusa. Nada de especial se pensarmos que, nos últimos anos, perdemos as Direcções Regionais da Economia, do Instituto Português da Juventude, da Agricultura ou do Instituto de Desporto de Portugal. Nada que surpreenda se pensarmos que, em simultâneo, fecharam portas a POCERAM, a Real Cerâmica ou a Marcopolo, só para dar alguns exemplos. Mais uma maçada, portanto, que torna estas primeiras linhas especialmente enfadonhas, é certo, mas altera pouco o que já sabemos: Coimbra equilibra-se, a custo, sobre um plano demasiado inclinado.

A respeito, vão-se ouvindo as vozes do costume. Umas, que a culpa é do Governo, que não gosta de Coimbra. Outras, que a culpa é da Câmara, que tem afundado a cidade. Ambas, na simplicidade, quase pueril, dos seus argumentos, interessadas em fazer valer as normais disputas entre PS e PSD, mais do que em revelar as razões fundas da nossa agonia. Ora, não pretendo eu, na “simpatia” da minha “juventude”, cavar mais fundo esse terreno. Mas, contando com alguma condescendência, atrevo-me a dizer duas coisas: uma, que têm ambos razão. Outra, que não têm razão nenhuma.

Tenho pouco jeito para teorias da conspiração e obrigo-me a resistir-lhes, vai para uma mão cheia de anos. Mas começo a ficar impaciente com esta sucessão de “lamentáveis coincidências”, talvez conjugações astrais, que apoucam Coimbra semana após semana e que, se não têm culpados, terão pelo menos autores. Não me parece interessante integrar o assunto na categoria das coisas que ninguém faz, mas que aparecem feitas. E vai sendo tempo de pedir responsabilidades, quer ao Governo, quer à Câmara. Se não têm culpa, que encontrem os culpados. Se não carregam a culpa toda, pois que a dividam entre si.

Mas o apuramento dos culpados, mesmo o seu sacrifício na fogueira, não resolveria, por si só, o problema. Governo e Câmara, para este efeito, são reflexo de uma cidade que não mudará enquanto não assumir, ela própria, as suas responsabilidades. Cabe-nos a todos, de todas as idades e em todos os partidos, defender os interesses de Coimbra mas, sobretudo, afirmá-la por inteiro, com excelência, em várias frentes: na ciência, na economia, na cultura e – muito especialmente – na política. Nenhum vento será favorável, se não soubermos para onde vamos. E se, depois de sabermos, não formos mesmo.

12.1.10

Um outro mundo é possível


Não é genial a afirmação de que um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes. Na melhor das hipóteses, oblitera que a adesão partidária impõe já uma certa conformação ideológica, limitadora da “soberana” vontade de quem o compõe; na pior delas, desbrava o perigoso caminho da prepotência das maiorias que, se devem ser respeitadas, é duvidoso merecerem grande sacralização. Não sendo, pois, uma afirmação genial, nem por isso deve deixar de ser repetida. Um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes, sim. Mas dos militantes todos. E é aí que começa o problema.

É muito comum achar-se que a democracia é uma forma de legitimação do poder pela maioria. É menos comum perceber-se que a democracia, ela própria, deve, não apenas catalisar o aparecimento de várias correntes de opinião, mas também dar expressão aos anseios de cada uma delas, como parte de uma realidade plural e em permanente mutação. Não admira – é mais fácil gerir uma facção do que um partido inteiro. E é mais fácil manter uma facção por sobre a aniquilação moral das restantes.

Em Coimbra, nos últimos anos, o Partido Socialista tem-se demitido de ser um partido inteiro. Em certo sentido, deixou-se sequestrar por divisionismos redutores. E, pelo caminho, traiu a sua própria natureza. Na história do PS Coimbra, houve um dia de menor inspiração em que alguém se lembrou de dizer que o PS se dividia entre a “gente que pensa” e a “gente que faz”. E a partir desse dia, o PS Coimbra passou a distrair-se com esse folhetim, mais do que com a política, propriamente dita.

Por mim, creio que o PS, no Concelho de Coimbra, deve afirmar-se como um “partido que faz”, um partido “de terreno”, já que nenhuma organização sobrevive sem decisões, sem mangas arregaçadas e sem proximidade entre quem lidera e o conjunto dos seus militantes. Mas isso não significa que o PS, no Concelho de Coimbra, não deva ser também um “partido que pensa”, na perspectiva de que a reflexão, a análise, a espessura do discurso político são condição da sua sobrevivência enquanto instituição credível, fiel aos seus princípios estruturantes e propulsora da sociedade como um todo. Por outro lado, achar-se que “quem faz não pensa” e que “quem pensa não faz” é, essencialmente, um preconceito.

Dissociar estas duas realidades implica, ou uma grande dose de ignorância – o que é lamentável – ou uma certa queda para a manipulação – o que é perigoso.

Em todo o caso, enquanto o “partido que faz” pretender aniquilar o “partido que pensa”, e vice-versa, estaremos sempre condenados a um partido que “pensa que faz” ou a um “partido que faz que pensa”. Um outro mundo é possível!

8.1.10

1 ano


Foi há um ano, o primeiro post.

5.1.10

Cidade criativa

Passámos os últimos dez anos a ouvir falar de tecnologia. Em especial, de como um choque da dita cuja nos salvaria da penúria, sujeitos que estávamos a um mercado globalizado, economicamente mais competitivo, embora também socialmente mais desafiante.

Nesse contexto, a qualificação dos recursos humanos, a inovação tecnológica, seriam o caminho, sobretudo para os que, recusando o atalho do dumping social, não tinham mais por onde lograr, a um só tempo, crescimento económico e emprego. Acrescentaríamos competitividade à economia nacional, inovando nos processos produtivos, ao invés de remunerar o povo operário com malgas de arroz.

Mais coisa menos coisa, foi isso que o engenheiro Guterres verteu na agenda de Lisboa, nos idos de 2000; como foi nesse trilho que, com o tonitruante choque tecnológico, o eng. Sócrates arrebatou o coração dos portugueses, corria o ano da graça de 2005. Simplesmente, não estou certo de que a ciência encerre, por si só, a inovação de que a economia precisa e, a esse respeito, a verdade é que a última década está longe de anunciar algo de inspirador.

Olhando para Coimbra, começo-me a perguntar se o facto de andarmos há vinte anos para fazer um parque tecnológico é razão de lamento, ou se, pelo contrário, nos devemos animar por o choque tecnológico, no nosso caso, nunca ter passado de um formigueiro.

É que se o objectivo estratégico, o tal que vem da agenda de Lisboa, passa por introduzir inovação na economia, não estou certo – embora tenha estado no passado – de que o caminho seja pela via da ciência, mais do que pela via da cultura. Julgo perceber que a economia precisa, sobretudo, de criatividade. E se Coimbra pretende ser uma cidade criativa, estará mais perto se investir na cultura, valorizar o seu património, for consciente da sua história e sonhadora do seu futuro. Bem mais perto do que se estiver condenada a repetir, mal, tarde e sem convicção, alguns manuais de “modernidade”.

Para todos os efeitos, é duvidoso que os novos negócios, novos produtos, novos processos produtivos que procuramos, estejam ao alcance de um pós-doc em astrofísica, mais do que de um empresário com a quarta classe que goste de olhar as estrelas, numa noite de Verão.

29.12.09

1910-2010


Escrever à beira da passagem de ano tenta-nos a apregoar a bonança. Sabemos que é mentira e que o ano que começa será, se não pior, semelhante ao ano que finda. Mas não nos resignamos. Se sobre a vida e o mundo nos vendem uma narrativa de grandes acontecimentos, é isso mesmo que, no mais fundo, esperamos venha a acontecer.

Esperamos mas não fazemos nada por isso. Se descontarmos a dúzia de passas que metemos no bucho, o banho de água fria e umas cuecas azul-ciano, ficam contados os sacrifícios a que estamos verdadeiramente dispostos para mudar de vida. O que até se compreende: sobreviver à vida é suficientemente difícil para que alguém se dê à extravagância de a mudar. Fica o mundo quase exclusivamente entregue aos mistérios da fé e, imagine-se, da política.

Mas 2010 é o ano da República. O ano centésimo sobre uma inspiradora concepção da coisa pública. E é razoável, por isso, que se abdique da fé, talvez mesmo até da política, para lhe prestar homenagem, esperando de Coimbra coisas grandes, como há muito não se espera.

Nem a divina providência, nem, suponho, a audácia dos políticos, serão bastantes para afirmar, em Coimbra, os valores da República.

Uma cidade onde não há emprego – menos ainda que no resto do país – arrasa qualquer pretensão de estabelecer oportunidades iguais para todos, independentemente da classe social, do grau de instrução ou do género de cada um. Uma cidade onde se compra casa ao dobro do preço praticado à distância de 10 Km, está irremediavelmente distante de se afirmar como um espaço de liberdade. Uma cidade que vê a cultura como uma responsabilidade a meio tempo, talvez uma meia responsabilidade, sempre fará definhar o regime até à simples subjugação, pela ignorância e pelo medo. Uma cidade onde os poderes públicos deliberam à porta fechada, fica a dever qualquer coisa, pelo menos, à transparência.

Creio que a mudança, desta vez, não pode suspender-se da fé, da política ou da sorte. Uma dúzia de passas e umas cuecas azul-ciano não serão, porventura, suficientes. E sendo o banho gelado um bom começo, resgatar a face da cidade e dignificar a República obrigará, decerto, a um pouco mais de nós próprios. Uma vez pelo menos, ainda que de cem em cem anos.

24.12.09

O caminho faz-se caminhando

A mudança faz-se mudando.

Tenha umas boas festas.