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17.3.12

Porque não sou candidato

No momento em que é conhecida a recandidatura do actual Presidente da Concelhia do PS Coimbra à liderança daquela estrutura, venho sendo abordado por vários camaradas e por alguma comunicação social, quanto à possibilidade de, conforme sucedeu há dois anos, renovar uma candidatura própria. Desde logo adiantei que trataria de reflectir sobre o assunto com aqueles que me têm acompanhado, e que, no momento oportuno, tomaria uma posição. Chegou, pois, esse momento.

O que tenho para vos dizer (depois de o ter dito no local próprio, que é a Comissão Política) é que não serei candidato no próximo acto eleitoral. Sendo esta a minha decisão final, tomada em consciência e fundada em duas razões principais.

Em primeiro lugar, entendo que, neste momento, devo dar prioridade à consolidação da minha vida profissional. Não que considere, como consideram alguns, que a política não possa (ou não deva) ser uma actividade a tempo inteiro. Pelo contrário, poucas actividades humanas serão tão complexas e tão nobres, ao ponto de merecer esse grau de dedicação. Porém, a política profissional e a tempo inteiro, exercida com liberdade, implica uma total independência de interesses financeiros.

Neste sentido, a prioridade que dou, agora, à minha vida profissional, é um compromisso pessoal e familiar mas é, igualmente, um compromisso com a política livre, sem peias e em nome do interesse público.

Em segundo lugar, estou absolutamente convencido de que o PS tem uma oportunidade única para vencer as próximas eleições autárquicas em Coimbra e, em pouco mais de um ano, ninguém poderá, em sã consciência, arrogar-se a capacidade de empreender tal tarefa. Assim, é meu entendimento que a actual Concelhia deverá desenvolver, até às próximas autárquicas, a missão em que foi investida desde há dois anos e cuidar de devolver a governação da cidade ao Partido Socialista. O PS não terá em mim um obstáculo, mas, antes e sempre, um aliado.

Mais uma vez, renovo a minha disponibilidade para participar activamente na vida política, em nome dos valores da esquerda democrática e da minha cidade de sempre: Coimbra.

13.9.11

Vamos falar de Política?

UMA IDEIA PARA COIMBRA : A CIDADE SAUDÁVEL


(...) parece haver na cidade um consenso relativo em torno do que será, afinal, a vocação de Coimbra. Especialistas vários, políticos de diversos quadrantes, cidadãos em geral, parecem convencidos de que a Saúde é o que nos pode distinguir, o que nos permite “competir”, no concurso por melhores oportunidades profissionais, crescimento económico, bem-estar geral. Coimbra parece já rendida à ideia de que a Saúde é o seu filão. Embora não pareça saber bem, ou exactamente, por onde garimpar.

A tese mais corrente é a de que os nossos hospitais, os nossos profissionais de saúde, a comunidade científica, nos atestam a liderança no sector. E que se lhes soubermos associar outros serviços, como os que resultam, por exemplo, de novas empresas ligadas à biotecnologia ou aos produtos farmacêuticos, podemos crescer mais, gerar emprego e afirmar a cidade. Resta saber se isto, como bandeira, resolverá a diversidade de problemas com que se debate Coimbra, actualmente. Respondemos que não. Não se partir de uma abordagem tão fechada e simplista.

Acreditamos que é preciso ir mais longe. Uma concepção demasiado centrada nas ciências da saúde, em sentido estrito, deve complementar-se com uma ideia de planeamento urbano sustentável. À construção, não da mirífica Capital da Saúde, mas antes de uma Cidade Saudável, acessível a todos.

Vem de longe a ideia de que o bem-estar dos cidadãos, a sua qualidade de vida – conceitos algo difusos – estão intimamente ligados ao ordenamento urbano.

A relação entre a cidade e a saúde vem, diga-se, desde as origens do urbanismo.

Veja-se, por exemplo, que a disponibilidade de alimentos, um dos problemas básicos da saúde, esteve na raiz da própria cidade. Foi a partir do momento em que as sociedades agrárias conseguiram produzir com regularidade excedentes alimentares – na China, na Índia, na Mesopotâmia – que se promoveu a diferenciação social do trabalho e foi possível concentrar funções que beneficiariam das chamadas economias de aglomeração. Tendo sido esta aglomeração que implicou novas infra-estruturas e colocou novas questões de natureza sanitária: abastecimento de água, esgotos, arejamento; além da exposição a outros riscos, como incêndios, cheias, epidemias…

Actualmente e de acordo com a Organização Mundial de Saúde, um ambiente físico limpo e saudável; um ecossistema estável e sustentável; alto suporte social, sem exploração; alto grau de participação social; necessidades básicas satisfeitas; acesso a experiências, recursos, contactos, interacções e comunicações; economia local diversificada e inovativa; orgulho e respeito pela herança biológica e cultural; serviços de saúde acessíveis a todos; alto nível de saúde, são as condições para que uma cidade se torne “Saudável”.

Quanto a nós, deve ser esta a ambição de Coimbra: ser uma Cidade Saudável, adoptar a Saúde como elemento integrador do seu desenvolvimento.

ECONOMIA LOCAL, RESPONSABILIDADE SOCIAL

A afirmação de uma Cidade Saudável, como se disse, depende de uma economia local diversificada e inovativa, de um alto suporte social, sem exploração, da satisfação das necessidade básicas dos cidadãos.

Não cremos que Coimbra deva resignar-se a uma suposta vocação terciária e abdicar, definitivamente, da indústria. Resignar-se à saída dos mais jovens, por falta de oportunidades profissionais. O desenvolvimento económico e social de Coimbra deve assentar, ora no empenho em recuperar os sectores tradicionais, ora no favorecimento de novos projectos empresariais, em ambos os casos, assegurando altos níveis de responsabilidade social.

a) Conselho Municipal de Concertação Social

Acreditamos que à autarquia cabe um papel activo, de luta pela sobrevivência das empresas do Concelho e pela manutenção de postos de trabalho, mesmo nos sectores ditos tradicionais. Apostamos, aqui, num modelo de concertação social, a partir do Município.

Descontando situações de manifesta inviabilidade económica, é urgente a criação de uma plataforma que corrija assincronias naturais, articulando, especialmente, a acção dos Sindicatos, do Estado (ora credor, ora financiador) e dos Empresários, com vista à recuperação empresarial.

Coimbra não pode desistir das suas empresas. Como não pode abandonar aqueles que, aos 40-50 anos, se vêem sem emprego e sem esperança.

b) Inovação e Qualificação Empresarial

A Universidade e as Instituições de Ensino em geral, com destaque para o Profissional, são um importante activo da cidade, estratégico e diferenciador. Tanto mais quanto saibamos tirar partido das suas virtualidades de modo sistemático e integrado. Sistemático, porque subordinado a um verdadeiro plano de desenvolvimento. Integrado, porque em articulação com todos os actores relevantes, como a autarquia, as associações empresariais, os sindicatos, os organismos do Estado.

É urgente colocar essas competências e energias ao serviço, quer da incubação de novos projectos empresariais, de elevado valor acrescentado, quer da incorporação de factores de inovação e qualificação, na esfera dos sectores mais tradicionais da nossa economia. O que seria, talvez, um verdadeiro Centro de Saúde para as Empresas.

COIMBRA CRIATIVA, UMA POLÍTICA CULTURAL DE ESQUERDA

A necessidade de acesso a novas experiências, recursos e interacções várias; o respeito pela herança cultural; mesmo a busca por uma economia local diversa e inovativa, impõem a centralidade da Cultura para a afirmação de uma Coimbra Saudável. É preciso assumir e explorar a relevância económica, laboral, urbanística e política da cultura e da criação artística. Pugnar ainda por uma visão plural e integradora, esbatendo a natureza “erudita” ou “popular” das manifestações culturais como eventual factor de conflito, reconhecendo todas as formas de expressão artística e cultural.

Por outro lado, é preciso construir um verdadeiro Regime de Cultura, por oposição a uma cultura de regime. Rejeitar a instrumentalização política dos agentes culturais, a sua sobrevivência à mercê de aritméticas eleitorais. Afirmar uma política cultural de esquerda determina que se invista na criação e na diversidade, que se aposte na formação dos públicos e que se trabalhe numa filosofia de rede.

a) Casa das artes

É preciso implementar um modelo de apoio à criação e formação artísticas, concedendo condições de incubação a projectos culturais de mérito, anualmente, mediante concurso público;

b) Escrita, leitura e livro

Deve ser explorada, em conjunto com os serviços educativos, a centralidade da Escrita, da Leitura e do Livro em Coimbra, contribuindo para a sua afirmação e projecção nacional e internacional.

c) SIM | Cultura – Sociedade Intermunicipal de Cultura

Promova-se, num esforço de cooperação com os Concelhos vizinhos, uma associação intermunicipal, que tenha por escopo a dinamização e promoção cultural em rede, aproveitando sinergias, quer ao nível dos agentes culturais, dos recursos e das infra-estruturas existentes, quer ao nível da respectiva programação.

UMA ESTRUTURA ECOLÓGICA URBANA ´

A presença de espaços verdes e o contacto permanente com a natureza contribui, entre outros aspectos, para a percepção de um espaço urbano de qualidade, para o desenvolvimento de estilos de vida saudáveis e para o equilíbrio do ecossistema urbano.

A promoção de uma estrutura urbana ambientalmente equilibrada, passará pela integração de todo o espaço verde existente na actividade quotidiana da cidade e dos seus habitantes. Esta integração deverá resultar da conciliação dos objectivos e expectativas de todos e, nesse sentido, o papel dos actores do sector público será traçar os objectivos comuns e promover soluções abrangentes.

A materialização destes objectivos passará por:

a) Estimular as iniciativas de criação de espaços verdes de produção e de lazer.

b) Criar uma bolsa de solo “verde” a ser disponibilizado a todas as entidades que pretendam desenvolver actividades de contacto com a natureza de uma forma organizada e continuada.

c) Construir uma rede de circulação pedonal “verde” que cubra toda a área urbana.

UMA CIDADE (RE)CENTRADA

Nos últimos anos o Centro foi abandonado, em primeiro lugar, por grande parte dos residentes, em seguida pelo comércio tradicional e, mais recentemente, pelas lojas das cadeias internacionais e pelos profissionais liberais. Para este fenómeno contribuiu também a mudança de serviços do Estado para outras áreas da cidade, assim como a concentração de serviços e a deslocalização de algumas entidades para outras cidades. Este processo conduziu a uma degradação evidente no espaço construído que resulta da degradação da estrutura económica e social.

A intervenção no Centro deve, pelas razões que estão na sua génese, ultrapassar as dimensões da recuperação do espaço construído e induzir a transformação nas dimensões económicas e sociais, na promoção da qualidade da habitação e na melhoria do ambiente urbano.

Uma proposta para a intervenção no Centro passará por aspectos como a criação de mecanismos que permitam ao município chamar a si a gestão do parque imobiliário devoluto do sector público. Com este património, envolvendo outros actores (como instituições de ensino superior, empresas privadas, associações de estudantes, etc,) será possível criar uma bolsa de espaços destinados a habitação a custos controlados, oficinas de criação artística, escritórios destinados à instalação de profissionais liberais e pequenas empresas; etc…Reverter o fenómeno da especulação imobiliária passa, também, pela reutilização do edificado existente.

Todavia, a recuperação dos edifícios em mãos de proprietários privados exige a utilização de mecanismos que, dentro do actual contexto legal e orçamental, permitam:

a) Partilhar o risco associado à obtenção de financiamento para a reabilitação, estimulando a iniciativa individual ou colectiva.

b) Assegurar a penalização dos proprietários de prédios devolutos e promover o reingresso desses imóveis num mercado regulado.

PARTICIPAÇÃO E CIDADANIA

Um alto grau de participação social integra, ainda, o conceito de Cidade Saudável, de acordo com a OMS. A cidadania plena, o concurso dos cidadãos para a tomada de decisão pública, é um bem maior da Democracia e um factor de progresso de dimensões incalculáveis. Sendo inegável a sua importância para o equilíbrio da vida em comunidade, para a melhoria das condições de vida, para o próprio bem-estar individual.

Ora, o dinamismo associativo de Coimbra e até, poderá dizer-se, uma certa vocação para a cidadania, devem ser potenciados. Ao Partido Socialista cabe reconhecer as organizações da sociedade civil como parceiros privilegiados, para o aprofundamento democrático e para a afirmação das grandes causas sociais.

Fazê-lo, implicará, decerto, abdicar de uma relação pontuada, ora pela desconfiança, ora pela tentação dirigista. A Concelhia do PS deve exercer o seu mandato em relação com a sociedade civil, respeitando o espaço próprio das organizações.

A afirmação de um projecto socialista para o desenvolvimento de Coimbra deve assegurar um amplo Compromisso Cívico, participado pelos cidadãos e pelas instituições, um desígnio colectivo para que todos concorram e em que todos se revejam. É um desafio imenso a que o PS não deve virar as costas, contribuindo para a credibilização da política e mesmo do sistema partidário, em diálogo com toda a sociedade.

21.7.11

Dia da Federação de Coimbra | Unidos na Acção

Estamos quase a terminar a campanha que elegerá o próximo Secretário-geral do PS.

Independentemente do resultado, sairá vitorioso o Partido, já que ao longo dos últimos meses se debateram IDEIAS e se procurou elevar a POLÍTICA, no campo ideológico da esquerda democrática. É desta forma que interpreto a intervenção de TODOS os camaradas da Federação de Coimbra, apoiantes de um e de outro candidato que participaram, com entusiasmo, com empenho e com sentido de militância, nesta campanha.

Aos que, ao meu lado, se irmanam na ambição de ver eleito o Francisco Assis Secretário-geral do PS, agradeço o espírito combativo e a generosidade próprios de quem se move em nome daquilo em que acredita.

Aos que, por seu turno, estão ao lado do António José Seguro – vários amigos de hoje e de sempre – dirijo uma mensagem de grande respeito democrático.

A 22 e 23 de Julho, os militantes do PS, em liberdade e consciência, serão soberanos na sua decisão. E no Domingo, dia 24 de Julho, despertará UM NOVO PS, UM SÓ PS, plural e solidário no modo como acolhe a divergência de opiniões, mas UNIDO NA ACÇÃO contra a Direita, em nome e ao lado das Pessoas.

Apelo por isso, em meu nome pessoal, à participação de todos na comemoração do Dia da Federação de Coimbra, exactamente no Domingo, 24 de Julho, em Maiorca. Com a nossa presença, daremos simbolicamente um sinal de cultura e maturidade democráticas. Na certeza de que o tempo é de combate e de que TODOS OS SOCIALISTAS serão poucos para o que aí vem.

12.6.11

Porque apoio Francisco Assis?


Sou socialista. Hoje, como ontem. Não mais, não menos do que em Fevereiro de 2005, quando o PS conquistou a primeira maioria absoluta da sua História. Não mais, não menos do que no passado dia 5 de Junho, quando os cidadãos eleitores afastaram o PS do Governo, com uma votação que a todos deve fazer pensar. Parar para pensar.

Mas ganhar e perder, num regime democrático, é coisa natural e ambas devem ser encaradas como manifestações livres do povo, aptas a conduzir, cada qual do seu modo, à reflexão, à construção, a uma aprendizagem cívica.

Sou socialista. E comprendo que os cidadãos, depois de nos terem depositado a confiança de uma maioria absoluta em 2005, no-la tenham retirado, seis anos depois. Terão, certamente, as suas razões - o facto de termos cometidos erros, todos nós socialistas, será uma razão de monta. Mas a derrota do último dia 5 de Junho não me retirou a convicção de que tinhamos o melhor programa de Governo para o País, sobretudo se em contraste com a cartilha ultra-liberal que a maioria de Direita se prepara para pôr em prática. As convições, quando são convicções, resistem à espuma dos dias.

Sou socialista. E sei que ao longo dos próximos anos teremos um Governo de Direita que será incansável a demonstrar ao País que os socialistas – os socialistas todos – são responsáveis pelos males do Pátria. De ponta a ponta, nas Finanças Públicas e na Educação, na Saúde e na Economia, na Administração Interna e na Agricultura, o Dr.Portas e o Dr.Passos Coelho estarão empolgados em pintar os últimos seis anos de Governação Socialista como os mais negros da democracia nacional. Sou socialista. E, neste cenário, caberá aos socialistas assumir os erros cometidos, com humildade, mas também demonstrar, de modo combativo, que o país se desenvolveu – e muito – pelas mãos de todos nós. É minha convicção de que o caminho contrário – o de encolher os ombros sobre o passado, procurando que ele se esfume num apagão mediático – não será caminho nenhum, será um atalho.

Por isto mesmo, nas eleições para Secretário-Geral do nosso Partido que se aproximam, apoiarei o camarada Francisco Assis.

E por isto, muito ponderadamente, aceitei o seu convite para dirigir a campanha que promoverá no Distrito de Coimbra.

Com franqueza, não estou convencido de que o PS que perdeu as eleições a 5 de Junho possa precipitar um novo ciclo, em menos de um mês. Sim, voltaremos às vitórias e recuperaremos a confiança dos portugueses! Mas tudo levará o seu tempo. Não haja ilusões.

Acredito que o camarada Francisco Assis possui as qualidades intelectuais e políticas necessárias para relançar o debate de fôlego sobre o futuro da Esquerda Democrática e, bem assim, sobre a Participação Política, dentro e fora do PS, de que tanto precisamos.

Sou socialista, orgulho-me da História do PS e acredito no seu Futuro. Por isso apoio o camarada Francisco Assis. Mas, devo esclarecer, isso não faz de mim mais socialista que ninguém.

Os socialistas todos farão do próximo Congresso, certamente, um momento de afirmação dos valores da Esquerda Democrática.

Os socialistas de Coimbra, em especial, farão deste Congresso mais um grande momento de afirmação da nossa Federação, do Distrito e da Região.

23.5.11

Anjos e demónios


Quem quer fazer política em Portugal deve abdicar de falar português. Quando se é político tem que se falar uma outra língua: encriptada, reservada, ambígua, manipuladora, por vezes – um dialecto que Camões teria, decerto, a maior dificuldade em reconhecer. Ganha a política, ganharão os cidadãos, alguma coisa com isso? Creio que não. Mas essa é a condição primeira para que, na era das manchetes, dos twits, dos posts, se sobreviva ao juízo dos próprios cidadãos, mais ou menos mediado pela comunicação social. Ser claro sai caro e na maior parte dos casos, - veja-se a ironia – conduz à incompreensão.

Depois, queixam-se os cidadãos, queixam-se os comentadores, queixa-se uma parte dos partidos, do chamado empobrecimento do debate político ou da aparente indistinção dos discursos dos seus principais protagonistas. Pudera, quando criámos o caldo de cultura perfeito para que ninguém se sinta confortável a analisar o fundo das questões, procurando ser intelectualmente honesto e, enfim, dizer o que pensa. Só na reforma - temos vários exemplos disso – a maior parte dos políticos se dá ao luxo de o começar a fazer, sem reservas mentais, sem rodriguinhos, sem “se” “mas” “porém”.

A recente novela em torno das declarações de Ana Jorge, cabeça-de-lista do PS por Coimbra, a propósito do Metro Mondego, é disto um exemplo bastante impressivo. O essencial das suas declarações – a “prioridade é a conclusão das obras no Ramal da Lousã, para que num horizonte temporal de 2014 o troço Serpins (Lousã)-Parque (Coimbra) seja uma realidade” – passou logo para segundo plano quando referiu, por mero dever intelectual e sentido de responsabilidade, diferentes caminhos para um problema que, nas actuais circunstâncias, merece mais do que uma abordagem a preto e branco. Claro que a façanha lhe valeu, como era de prever, um verdadeiro chilique da oposição local, com grosserias à mistura, uma oposição que parece preferir narrar a política como se de um livro do Dan Brown, com anjos e demónios, se tratasse.

Sucede que para além da ficção, na crua realidade do país real, é preciso que se mantenham firmes aqueles que se recusam a fazer da política uma espécie de fado à desgarrada, onde vence quem se apresenta com a voz mais grossa e, por mais disparates que diga, consegue sempre a última palavra. É dessa massa – da dos que resistem à vulgaridade – que se fará a política do futuro. Se houver futuro.

19.4.11

Um desafio aos deputados por Coimbra

Transcrevo, abaixo, moção de que sou primeiro subscritor e que foi unanimemente aprovada na Comissão Política Concelhia do PS Coimbra, realizada em 4 de Abril, último. Tendo já sido endossado por aquele órgão, o texto aguarda, agora, apresentação e votação em sede de Comissão Política Distrital.

A democracia portuguesa atravessa um momento particularmente sensível, desde a sua fundação, em Abril de 1974. Como muitas vezes na história mundial, uma crise económica e financeira de contornos ainda não completamente definidos faz adensar descontentamentos e acende no espírito dos cidadãos um particular sentido crítico quanto ao desempenho dos titulares de cargos políticos e quanto à própria sustentabilidade do regime democrático, enquanto modelo de organização colectiva, apto a servir o interesse geral.

Neste contexto, sendo necessário canalizar esforços para a resolução célere da crise económica e financeira que impende sobre a república portuguesa e que, dia após dia, vem exigindo brutais sacrifícios às famílias, importa reflectir sobre as insuficiências do sistema político em vigor e, particularmente, contribuir, o mais que seja possível, para aprofundar, consolidar e dignificar a representação democrática, verdadeiro mandato de confiança entre eleitos e eleitores.

O Partido Socialista – e o Partido Socialista em Coimbra – têm, aqui, particulares responsabilidades a assumir.

Por estes dias e face aos desafios cívicos que se nos apresentam, quando em cima da mesa se colocam as alternativas possíveis para a representação política do PS e dos cidadãos de Coimbra na Assembleia da República, importa menos discutir nomes, importa menos confrontar personalidades, importa menos disputar protagonismos.

Importa mais, acima de tudo, discutir um verdadeiro Manifesto político, assumir um Compromisso com os cidadãos e configurar um Mandato para os deputados eleitos pelo Círculo de Coimbra – especialmente para os que venham a representar o Concelho de Coimbra - no Parlamento Português, a partir do próximo dia 5 de Junho. Manifesto, Compromisso e Mandato, em moldes que possam ser permanentemente avaliados, é o que se exige àqueles que pretendam ser eleitos em representação do PS e em representação de Coimbra. A Assembleia da República terá, no cenário de dispersão de votos que se prevê resultante das próximas eleições, um papel como nunca decisivo para o futuro de Portugal e o seu desempenho obriga a um acrescido sentido de dever, a um reforçado sentido de responsabilidade.

Nestes termos, a Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista delibera – e recomenda à Comissão Política Distrital deliberar – que cada um dos candidatos à Assembleia da República a eleger pelo círculo de Coimbra deva assumir os compromissos seguintes:

1.Apresentar previamente às eleições um Manifesto Político que enumere, de modo claro, os principais objectivos do seu mandato e a previsão possível dos respectivos modo e prazo de concretização, no seio da actividade parlamentar;

2.Permanecer no Distrito de Coimbra um dia fixo por mês, em horário e local a definir e divulgar, atempadamente, para atendimento aos cidadãos;

3.Marcar presença, salvo por motivo justificado e escrito, em todas as reuniões da Comissão Política Distrital de Coimbra do Partido Socialista, em condições de poder reportar a actividade desenvolvida e receber recomendações políticas daquele órgão;

4.Participar, trimestralmente, em Plenários de Militantes abertos aos Cidadãos, organizados pelos órgãos próprios, Concelhios e Distritais, do PS Coimbra;

5.Elaborar, no final de cada ano e no final do Mandato, um Relatório da respectiva Actividade Parlamentar, em modelo uniforme a definir pela Federação, que possa ser divulgado e avaliado pelos militantes do Partido e pelos Cidadãos em geral.

25.10.10

Bons costumes


Cumpriu-se no último Sábado o congresso distrital do PS Coimbra. Dele se retiram duas notícias essenciais. A primeira, a de que os dois candidatos chegaram a acordo quanto à composição da próxima Comissão Política Distrital, apresentando uma lista de consenso, liderada pelo presidente eleito e ali empossado, Mário Ruivo. A outra, a de que o presidente cessante, derrotado nas eleições, mantém a impugnação judicial do sufrágio, não se conformando com o resultado, apesar daquele acordo. Confusos? Não é razão para menos.

O horizonte de um acordo entre as duas listas concorrentes começou a traçar-se, publicamente, no decurso da última semana. E a possibilidade da sua concretização ganhou um novo fôlego ao início da manhã de Sábado quando, em pleno congresso, Mário Ruivo desafiou Victor Baptista nesse sentido. As horas seguintes vieram confirmar o acordo. Mas não sem um particularismo bizarro, daqueles a que o deputado Victor Baptista já nos habituou: integra a lista de Mário Ruivo, mas não lhe reconhece a liderança; aceita ser presidente da mesa da Comissão Política Distrital, mas acha que a sua eleição é ilegal. Um pouco como a rábula do aborto e a caricatura de Ricardo Araújo Pereira ao professor Marcelo: “é proibido! Mas pode-se fazer! Mas é proibido! Se fizer o que é que me acontece? Nada! “. E assim por diante…

Ora, dita a experiência que mais vale um bom acordo do que uma má demanda. Mas impõem os bons costumes que, feito o acordo, termine a demanda. Dito de outra forma: se eu dever dinheiro a alguém e contra mim for instaurada uma acção judicial, qualquer acordo sobre o pagamento da quantia em causa, determina a desistência da referida acção. Isto é o tipo de coisa que qualquer pessoa de bons costumes – e de boa fé – percebe. Mas não é essa a opinião do deputado Victor Baptista. Para ele, é uma questão de princípio fazer um acordo com a mão direita e impugnar as eleições com a mão esquerda. Como é uma questão de princípio participar num Congresso e entregar um protesto a contestar-lhe a legitimidade, tudo de uma assentada. Eu acho que isto não é princípio nenhum. E acho mesmo que é o fim.

Fica-nos o exemplo – e a paciência – de Mário Ruivo, que para além de se ter disposto a um acordo, apelou à consciência do presidente cessante, para que pusesse a impugnação de lado. Victor Baptista, acha, todavia, que o congresso é proibido. Mas pode-se fazer! Mas é proibido...

18.10.10

Bons ventos


Porque de Coimbra também sopram bons ventos, é dia de felicitar a Escola Secundária D. Maria. Pela nem sei que vez consecutiva, sagrou-se primeira no ranking nacional de Escolas Públicas o que, na prática, significa que os seus alunos obtiveram a melhor média nos exames de acesso ao ensino superior. Ainda que daqui a uns anos uma parte deles se arrisque a não saber onde meter o canudo, por agora, estão de parabéns eles, está de parabéns a escola e, já agora, que me perdoem o bairrismo, está de parabéns Coimbra.

Mas não são os únicos. Gostei particularmente de ouvir a dra. Maria do Rosário Gama (declaração de interesses: tenho o prazer de a conhecer) dizer o que, de resto, tem dito mais vezes. Sente-se honrada pelos resultados mas ressalva: “A escola está inserida numa zona urbana de meio económico médio alto e os alunos têm apoios extracurriculares como é o caso de explicações, tal como acontece na maioria das escolas dos grandes centros, uma realidade que é bem diversa noutras zonas do país.” A isto acresce, segundo a Directora, o esforço e o acompanhamento dos professores da escola, a quem acaba por endossar a maior parte dos méritos. Porque gostei de a ouvir? Porque a sua postura não é comum.

Todos os dias ouvimos nas televisões ou nos jornais quem fuja às responsabilidades e seja incapaz de assumir, com grandeza, os seus fracassos. Quem, por outro lado, contemple o sucesso do alto grandiloquente da sua singular existência. São raros, cada vez mais, o que se sabem colocar no seu lugar.

Recordo-me, a propósito, de uma história antiga, que ouvi contar recentemente a um amigo, também de Coimbra. Uma formiga e um elefante correm pelo deserto (ela a “cavalo” nele, claro) e a dada altura a formiga olha para trás e exclama: olha a poeira que nós levantámos! Ora, a reacção da dra. Rosário Gama ao prémio da “sua” escola diz bem que, mesmo em sentido figurado, ela se parece muito pouco com uma formiga. Sendo que o assunto, por se passar em Coimbra, merece uma segunda nota.

O exemplo que nos chega do D. Maria é não só de uma geração de gente qualificada – ao nível do melhor que há no país – mas também, quero crer, de pessoas que sabem respeitar os outros e que, em especial, se sabem dar ao respeito. Quem ainda não desistou de Coimbra sabe o quanto precisamos disso.

12.10.10

Honra aos vencidos

Eu já perdi eleições. Mais do que uma vez, até. E não gostei nada que tivesse acontecido. Graças a isso, porém, aprendi duas coisas: que os astros não se conjugaram especialmente, predestinando-me às vitórias, no dia em que cheguei ao mundo; e que aprender a perder com dignidade seria, para os desafortundados como eu, um elementar manual de sobrevivência. Posso dizer que não me tenho saído mal.

Descobri cedo, embora com marcado pesar, que sou um cidadão mediano, com desgraçada tendência para a mortalidade. E confesso que isso tem sido da maior serventia: deixei de conduzir em excesso de velocidade, durmo oito horas por dia, tento não apanhar sol na moleirinha e evito, por via das dúvidas, andar de montanha russa. Não que isso me realize especialmente (talvez até faça de mim um chato!), mas como não posso apelar às constelações para me manter inteiro, conforto-me ao menos com estes rituais e vou-me sentindo feliz, pela mera circunstância de andar por cá.

Por outro lado, descobri que perder com dignidade tem pouco a ver com o apelo às vitórias morais. Quando se perde, perde-se mesmo, e não se aprende a perder ficcionando-se uma vitória, ainda que moral. “Ah e tal, eu era o melhor, os outros é que não perceberam!”.. Até mesmo porque nenhuma eleição serve para decidir quem é o
melhor. Mas isso é outra história.

A verdade é esta: perde-se quando houve menos pessoas a votar em nós do que no adversário, ponto final. E a partir daí, o melhor é meter a viola no saco. A dignidade(externa) advém daí e um outro tipo de dignidade (a interior) vem mesmo antes disso. Vem, digamos, nos preliminares: quando se concorre porque se acredita, com bondade, no que se está a propor, é suportável, apesar de tudo – e digno – perder. Caso contrário(e esse é o tipo de derrota que nunca tive), caso se concorra apenas “para ganhar”, o que é muito usual, admito que perder seja mesmo desagradável ou, digamos, anti-climático. É talvez, também, se quiserem, uma questão de romantismo.

Ora, no passado Domingo, o candidato Mário Ruivo saiu vencedor de umas eleições internas, tornando-se Presidente da Federação Distrital do PS de Coimbra. Por seu turno, o candidato Victor Baptista saiu derrotado das mesmas eleições, abandonando o lugar que ocupava há quase uma década. Ademais, cumpre dizer que nenhum dos dois é um ser sobrenatural predestinado aos holofotes da glória e que a ambos seria exigível que, se perdessem, se comportassem com dignidade. Um deles, eu sei que tem essa consciência. Aliás, há coisas que aprendemos juntos. O outro, bem, o outro, nem por isso.

6.10.10

Horizontes


Cumprem-se os últimos dias de campanha na federação distrital do PS Coimbra. Por esta altura, vale a pena lamentar algumas perdas de estribeiras, mas sublinhe-se, em especial, a normalidade dos meses que passaram. Para tal terá contribuído, é certo que em doses diferentes, a urbanidade de alguns, mas também a simples, prosaica mesmo, cautela de outros. Diferentemente do que sucedeu há dois anos, e usando uma metáfora recente, são já poucos os que arriscam praguejar contra uma ventoinha.

Talvez por isso, é possível observar que, hoje, as manifestações dos militantes se dividem, cada vez mais, entre dois registos: um afirmativo e um outro - vagamente contrariado. Num certo sentido, às manifestações de apoio a Mário Ruivo, contrapõem-se agora os, digamos, apenas subscritores da candidatura de Baptista. E alguns destes, “ilustres” sobretudo, adoptam aos poucos um discurso auto-justificativo, como que sugerindo, entre dentes, a inevitabilidade, quase metafísica, da posição que tomaram. Ele é a “crise”, ele é a “lealdade”, ele é uma muito própria concepção de “solidariedade”, que já me entristeceu e que agora apenas me diverte. No meio disto tudo, está bom de ver o que está, afinal, à vista de todos: cheira a fim de regime, para os lados da Oliveira Matos.

Estou absolutamente convencido da eleição de Mário Ruivo, no próximo dia 9 de Outubro. E já nem me perderei a enunciar as razões do meu apoio, todas amplamente expendidas, no decurso dos últimos dois anos. Diferentemente, apetece-me pensar no próximo dia 10 de Outubro, primeiro dia do seu primeiro mandato, como presidente da federação do Partido Socialista de Coimbra. Precisasse ele do meu conselho – que não precisa! – dir-lhe-ia apenas que esse será o dia em que os militantes do PS reconhecerão a probidade do seu percurso, a firmeza do seu carácter e o mérito das suas ideias. Mas que, daí em diante, será posto à prova, como nunca no passado.

Há um partido para organizar e colocar ao serviço das secções e dos militantes, com transparência. Há um programa político para afirmar, na vanguarda das Políticas Locais, mas também na defesa do Estado Democrático e Social em Portugal. Há para erigir, quase dos escombros, uma nova relação de confiança com os eleitores do Distrito. E, como se não bastasse, há para resgatar a própria imagem de Coimbra, que alguns reduziram à dimensão paroquial que é, diga-se afinal, a dimensão dos seus próprios, e estreitos, horizontes.

17.8.10

A regra


Nos últimos dias foi conhecida a expulsão de vários militantes do partido socialista, creio que duzentos no total, sendo vinte deles no distrito de Coimbra. A sanção, prevista nos estatutos e aplicada pela jurisdição distrital dos socialistas, explica-se com a participação daqueles militantes em listas opositoras às apoiadas pelo PS, no âmbito das últimas eleições autárquicas. Nada a obstar, no plano jurídico. A sanção é, aliás, necessária. Mas fica muito por dizer, quase tudo, no que à política diz respeito.

A militância num partido político não se confunde com uma profissão de fé ou com a preferência por um clube de futebol. Estas, sendo diversas entre si, convergem nos valores sobretudo afectivos ou espírituais em que radicam, não reclamando, por isso mesmo, uma particular racionalidade e, sobretudo, não conferindo aos seus “associados” um verdadeiro estatuto. Muitos de nós nascem, aliás, com religião e clube de futebol já definidos. O mesmo não se passando – espera-se – com a militância partidária.

Quando se adere a um partido, adere-se voluntariamente a uma declaração de princípios e a um certo legado histórico, na expectativa do seu aprofundamento. E adquire-se um estatuto, que confere o direito e o dever de contribuir, activamente, com sentido crítico, para esse aprofundamento. Sendo essa solenidade que torna tão estranho o impulso de quem, num determinado momento, é militante de um partido e, no outro, resolve bater-se, nas urnas, contra esse exacto partido. Ou pelo contrário.

Seria estranho se os partidos, em regra, fossem espaços de discussão política, generosa e qualificada, ao invés de serem os simulacros de debate que, muitas vezes, o próprio parlamento evidencia; seria estranho se a regra fosse comportarem-se os partidos e, em especial, os seus dirigentes, como fiéis depositários de algum princípio, que não o da sua particular existência; seria estranho se, por exemplo, em Coimbra, ser socialista de cartão passado comprometesse, em regra, com a efectiva prossecução do socialismo - se há até quem se dedique a converter social-democratas para a conquista de municípios pelo PS!

A regra, demasiadas vezes, é não haver regra. E por isso, a alguns, de vez em quando, aplica-se a regra.

11.8.10

A uma só voz


Virgílio Caseiro deixou de ser maestro e director artístico da Orquestra Clássica do Centro. O sucedido, que já corria à boca pequena, ainda pode reverter-se, segundo o próprio, “se as forças vivas políticas da cidade conseguirem estabelecer uma relação de diálogo preferencial com o governo central e, muito concretamente com o Ministério da Cultura, que tenha como episódio final o reconhecimento da OCC como orquestra regional ou de equivalente estatuto e apoio.” Eis o que está em causa, portanto – a falta de apoio do Governo ao projecto.

Com esta mensagem, ficam “as forças vivas” convocadas para o objectivo proposto pelo maestro. E ficam convocados, em especial, o PS e o PSD (sejamos claros!) para reclamar junto do Governo o apoio e a consideração que a Orquestra Clássica do Centro há muito merece. Tarefa que não é menos do PSD – que comanda a autarquia – do que do PS, que sustenta o Governo. Este é, claramente, um daqueles casos em que a guerrilha partidária deve convolar-se numa só voz, sem cinismos, sem reserva mental, em defesa de Coimbra.

Ao PS, neste caso como em tantos outros, cabe articular entre a Orquestra e o Governo uma modalidade de apoio que faça justiça a dez anos de trabalho artístico e pedagógico, qualificado e ininterrupto. E é exigível que o faça institucionalmente, ao mais alto nível, com seriedade, sem intermediários, sentado numa mesa de reuniões, estabelecendo objectivos e prazos, à margem de cochichos e conversas de corredor.

Ao PSD, se puder e souber, cabe desmontar uma ideia que, pouco a pouco, se foi instalando na cidade: a de que a câmara de Coimbra agradece, abençoa e alimenta todos os conflitos entre o Governo e as instituições da cidade, explorando-os em seu proveito, num exercício da mais rudimentar politiquice. O dr. Encarnação que se disponha a dançar o tango, senão com o eng. Sócrates, ao menos com a ministra da Cultura. Não lhe ficaria mal o exercício e, por uma vez, mostraria disponibilidade para colocar os interesses de Coimbra acima dos seus interesses e do seu partido.

Não sou daqueles que acham que Coimbra merece loas do Governo, por ponderação curricular. Antes creio que o caso da Orquestra Clássica do Centro é um daqueles em que uma justa avaliação de desempenho corre, nitidamente, a seu favor.

2.3.10

A mudança assim-assim

André Freire e José Manuel Leite Viegas, do ISCTE, promoveram, segundo li, o estudo “mais exaustivo que compara as opiniões e percepções entre eleitores e eleitos jamais feito em Portugal”. Mas as suas conclusões, diga-se, estão inscritas na consciência do regime, muito antes de serem estampadas pelos investigadores de Lisboa. A confiança dos portugueses na democracia bateu fundo, é o que se conclui. Chegou mesmo ao nível mais baixo desde 1985.

Os eleitores sentem-se mal representados, não confiam nos políticos e não confiam, sobretudo, nos partidos. Sentem-se enganados, mas sentem-se, sobretudo, cansados. A renda da casa, as contas da água e da luz, a escola dos miúdos, eis o que os ocupa. Ocupa-os mais do que a “salvação do regime”, coisa em que não acreditam e que, verdadeiramente, já nem esperam. E como se ocupam disto tudo, ficam sem tempo para se pre-ocupar. Talvez o país político ainda não tenha percebido que está a falar sozinho. Perceberá, talvez, quando ficar sozinho: é cada vez maior o número de portugueses que sai do país para procurar emprego.

Em Coimbra, a agonia da Ceres e da Poceram, como o fecho da Real Cerâmica, parecem, de facto, não apoquentar ninguém. Os jovens que todos os anos abandonam a cidade, à procura de emprego – muitos para Cantanhede, Aveiro ou Viseu – não recebem do município mais do que a proverbial nostalgia coimbrã. A carestia da habitação e a degradação da baixa, para além de animarem umas palestras inconsequentes, não merecem a apresentação ou execução de uma única medida concreta. O facto de a cidade estar a ser espoliada dos seus serviços públicos, com fundamentos que suscitam as maiores reservas, abre caminho à manipulação do PSD, ao mesmo tempo que suscita reacções tímidas, na oposição. Não é difícil imaginar que o tal estudo do ISCTE, feito em Coimbra, não lograria resultados diferentes.

Mas talvez uma parte da solução resida, exactamente, na capacidade de melhorar o sistema à escala local. A maior proximidade entre eleitos e eleitores, a melhor percepção de eficácia das medidas tomadas, a participação dos cidadãos nos processos de decisão, tudo concorre para que ao nível municipal seja, talvez, mais fácil, melhorar o sistema. Assim os políticos saibam ser responsáveis, coerentes e credíveis.

Ao PS, no Concelho de Coimbra, caberá escolher entre ser parte activa numa verdadeira mudança ou ser cúmplice de uma mudança na continuidade. Ser cúmplice daquilo a que alguns chamarão uma “mudança responsável”. Há quem diga que, às vezes, é preciso mudar qualquer coisa, para que tudo fique na mesma. Eu não quero uma mudança assim. Muito menos uma mudança assim-assim.

12.1.10

Um outro mundo é possível


Não é genial a afirmação de que um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes. Na melhor das hipóteses, oblitera que a adesão partidária impõe já uma certa conformação ideológica, limitadora da “soberana” vontade de quem o compõe; na pior delas, desbrava o perigoso caminho da prepotência das maiorias que, se devem ser respeitadas, é duvidoso merecerem grande sacralização. Não sendo, pois, uma afirmação genial, nem por isso deve deixar de ser repetida. Um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes, sim. Mas dos militantes todos. E é aí que começa o problema.

É muito comum achar-se que a democracia é uma forma de legitimação do poder pela maioria. É menos comum perceber-se que a democracia, ela própria, deve, não apenas catalisar o aparecimento de várias correntes de opinião, mas também dar expressão aos anseios de cada uma delas, como parte de uma realidade plural e em permanente mutação. Não admira – é mais fácil gerir uma facção do que um partido inteiro. E é mais fácil manter uma facção por sobre a aniquilação moral das restantes.

Em Coimbra, nos últimos anos, o Partido Socialista tem-se demitido de ser um partido inteiro. Em certo sentido, deixou-se sequestrar por divisionismos redutores. E, pelo caminho, traiu a sua própria natureza. Na história do PS Coimbra, houve um dia de menor inspiração em que alguém se lembrou de dizer que o PS se dividia entre a “gente que pensa” e a “gente que faz”. E a partir desse dia, o PS Coimbra passou a distrair-se com esse folhetim, mais do que com a política, propriamente dita.

Por mim, creio que o PS, no Concelho de Coimbra, deve afirmar-se como um “partido que faz”, um partido “de terreno”, já que nenhuma organização sobrevive sem decisões, sem mangas arregaçadas e sem proximidade entre quem lidera e o conjunto dos seus militantes. Mas isso não significa que o PS, no Concelho de Coimbra, não deva ser também um “partido que pensa”, na perspectiva de que a reflexão, a análise, a espessura do discurso político são condição da sua sobrevivência enquanto instituição credível, fiel aos seus princípios estruturantes e propulsora da sociedade como um todo. Por outro lado, achar-se que “quem faz não pensa” e que “quem pensa não faz” é, essencialmente, um preconceito.

Dissociar estas duas realidades implica, ou uma grande dose de ignorância – o que é lamentável – ou uma certa queda para a manipulação – o que é perigoso.

Em todo o caso, enquanto o “partido que faz” pretender aniquilar o “partido que pensa”, e vice-versa, estaremos sempre condenados a um partido que “pensa que faz” ou a um “partido que faz que pensa”. Um outro mundo é possível!

24.12.09

O caminho faz-se caminhando

A mudança faz-se mudando.

Tenha umas boas festas.

23.12.09

Um aperitivo do futuro


A vida não se determina pelo que planeamos. O planeamento faz falta, claro, para organizar o dia-a-dia, para alimentar a ilusão de que somos donos dos nossos passos, para dar sentido, o sentido possível, aos dias que desfiamos com temor. Mas não é o que planeamos que, verdadeiramente, determina o curso da história.

A surpresa, o imprevisto, o sobressalto, eis o que faz a diferença. Toda a diferença. Eis o que transforma os nossos dias e o que transporta, afinal, a esperança, quando, como é habitual, se esgotam as agendas, os gráficos e as folhas de cálculo. E quando, apesar disso, a mudança que ansiamos, tarda em chegar.

Mas a surpresa, o imprevisto, o sobressalto, não são, necessariamente, fruto do acaso. São o fruto, muitas vezes, da vontade dos homens.

Surpreendemo-nos, verdadeiramente, quando se furam as regras. Essas regras que temos para tudo, as regras com que levamos a vida “direitinha”, que nos fazem supremamente infelizes, mas que, na maior parte dos casos, não questionamos. É assim o que sempre foi assim e, mal por mal, antes um mal que esperamos do que um que chegue sem avisar. Bem entendo. Mas a verdade é que o progresso veio, quase sempre, quando alguém se lembrou de dar um passo em frente, questionou as regras, baralhou o jogo, confundiu a “situação”.

Ora, decidi candidatar-me a presidente da concelhia de Coimbra do PS, precisamente na convicção de que um passo em frente pode fazer a diferença.

Percebi, nos últimos tempos, que os socialistas de Coimbra não esperavam grande coisa das próximas eleições internas. Que estavam resignados ao que seria a fatídica “ordem natural da coisas”. E achei que devia estimular uma abordagem diferente.

Repetir os confrontos do passado e caucionar a vitória de quem, de entre os respectivos protagonistas, seja, porventura, o mais resistente, não augura grande coisa. A vitória nas próximas eleições para a Concelhia, num Partido que pretenda dar futuro a Coimbra, deve ser a vitória da esperança, não a vitória pelo cansaço.

E o certo é que, de repente, se sobressaltou mesmo o PS em Coimbra. O que parecia ser uma eleição sem história, promete ser, afinal, uma eleição histórica. E, garanto, nada paga a satisfação, o entusiasmo, o sorriso, a vontade, a determinação, a esperança dos que estão a viver esta aventura comigo.

Hoje, sabemos que as próximas eleições na concelhia do PS Coimbra não serão um digestivo do passado. Antes pelo contrário: serão um aperitivo do futuro.

18.12.09

A mudança está a chegar


A mudança chegará serena, mas determinada. Dialogante, mas decidida. Convoca o Partido, convoca Coimbra, convoca-nos a todos.

Está a nascer um PS Coimbra novo. Sustentado pelas ideias, aberto à participação de todos.

A força do nosso Partido é, ainda e sempre, a força das nossas convicções. Um Partido fundado nos valores de Abril, capaz de afirmar um verdadeiro projecto colectivo, de liberdade, igualdade e tolerância. Respeitando a vontade dos militantes.

Agarremos, juntos, esta oportunidade. Em nosso nome e em nome dos que virão depois de nós.Todos somos importantes, todos somos necessários. Conto com todos.

16.12.09

Declaração de candidatura

O Partido Socialista é uma organização com enormes responsabilidades públicas. Sendo um partido fundador da democracia portuguesa, tendo protagonizado alguns dos seus momentos mais marcantes, tendo merecido a confiança de milhões de cidadãos ao longo da História, estando, hoje mesmo, mandatado pelos portugueses para governar Portugal, não pode, em nenhum patamar da sua intervenção, resignar-se a um papel acessório, secundário ou marginal.

Não pode o Partido Socialista reservar-se o papel de mero e descomprometido observador; nem pode - esse Partido que fundou a Democracia, criou o Serviço Nacional de Saúde, abriu as portas da Europa – abandonar a linha da frente, lá onde se oprimam as liberdades, onde mais se sintam as desigualdades sociais, onde campeie a injustiça, lá onde tarde o progresso.

Creio que o PS, apesar de tudo, tem sabido honrar essas responsabilidades. Nos relatos da História, decerto não terão lugar a pequena política, os erros de conjuntura, os deslizes pontuais. Desde 1973, o que ressalta é, ainda, a dedicação à causa pública, a excelência dos seus principais quadros, o contributo, decisivo, para o progresso económico e social do país. Esse é o património do Partido Socialista, um património que pertence a todos os seus militantes, um património que, em cada momento, devemos saber honrar e preservar. E é isso mesmo que o país, que Coimbra também, espera de nós.

No entanto, hoje, Coimbra observa o Partido Socialista com um misto de desilusão e ansiedade. Desilusão porque sente o Partido afastado do património que é o seu, um património que a cidade se habituou a admirar e reconhecer. Ansiedade porque, apesar disso, Coimbra se sente ainda demasiado próxima do PS e nele deposita as maiores expectativas.

Cabe-nos, cabe aos socialistas de Coimbra, resolver este impasse. O que, creio, só se fará arrumando as velhas discussões de família – muitas num estado de enquistamento irreversível – e refundando a nossa acção política, sem abdicar do debate, mas estabelecendo uma nova relação de confiança, entre os miltantes e com a cidade.

Neste processo, necessário, ambicioso e inadiável, é importante que cada um assuma as suas responsabilidades.

Quero, por isso, assumir, que serei candidato a Presidente da Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista, nas eleições que decorrerão em Abril do próximo ano.

Assumo, hoje, perante o meu Partido e perante a minha cidade, esse desafio. Ponderado e irreversível.

Torno, hoje, pública esta decisão – quando faltam cerca de três meses para o acto eleitoral - sabendo que não é desejável prolongar ou pronunciar, demasiado, as discussões internas do PS fora dos seus órgãos próprios. Logo que os órgãos próprios sejam, genuinamente, espaços de livre discussão.Mas é importante que a cidade e o Partido tomem já conhecimento desta decisão, para que, ao longo dos próximos meses, se possa construir um projecto colectivo, com a participação de todos, que seja um verdadeiro e transparente compromisso cívico. É isso que pretendo. Só isso permitirá um Partido plural na discussão e unido na acção.

Recuso-me – e quero que isso fique claro - a protagonizar qualquer projecto meramente pessoal, de conjuntura ou de facção. Mas recuso-me, também, à incoerência de não assumir as minhas opções. E, menos ainda, à política de caldeirada, assumindo todas as opções e o seu contrário.

Esta candidatura é, primeiro, um acto de responsabilidade perante o Partido e perante Coimbra. É depois um acto de vontade, condicionado apenas pela minha consciência. E é, finalmente, um compromisso colectivo, encorajado pela partilha de perspectivas e valores com muitos camaradas, com diferentes percursos, diferentes idades, diferentes proveniências, todos necessários e todos importantes.

Todos os envolvidos neste ambicioso movimento de mudança têm consciência das dificuldades que têm pela frente, apostados que estão em tornar o Partido Socialista, na Concelhia de Coimbra, uma organização eficiente, ao serviço das Secções e dos Militantes; e um espaço de reflexão política, actuante na oposição à maioria de direita que governa a Câmara de Coimbra, mas primando pela construção de alternativas credíveis, por um verdadeiro e participado projecto de cidade. A cidade próspera e solidária, insubmissa, respeitada que está, infelizmente, por cumprir.

No futuro, não nos poderão acusar de ter seguido a corrente, os ventos mais favoráveis ou o canto da sereia.

Sabemos o que queremos e assumiremos esse desafio, até às últimas consequências.

Não nos esgotaremos, porém, na praça pública, expondo à curiosidade dos outros, o que só aos militantes do Partido diz respeito.

De hoje em diante, serão os militantes, um por um, o centro das nossas atenções. Queremos propôr-lhes o nosso projecto. Mas, mais do que isso, queremos ouvi-los! E queremos que construam o Partido, ao nosso lado.

De hoje, em diante, discutiremos, apenas, o futuro. Porque o PS Coimbra está sequestrado pelo passado, há tempo demais.

Queremos um Partido melhor organizado e mais próximo dos militantes. Que reúna os mais empenhados, os mais preparados, para transformar o Concelho através de um programa político de esquerda.

Queremos uma cidade de oportunidades iguais para todos, coerentemente projectada, preocupada com a qualidade de vida dos seus habitantes, descomprometida de interesses particulares ou de estratégias obscuras.

Queremos influenciar, de novo, a vida política do País, fazendo de Coimbra e do PS Coimbra, uma voz incontornável.

E entregamo-nos a este desafio, sobretudo, porque acreditamos que Coimbra tem futuro!


Coimbra, 17 de Dezembro de 2009

23.11.09

Ainda (h)a esquerda

Verdade que não subscrevi, nem subscrevo, algumas posições de Manuel Alegre. Mas não posso deixar de assinalar o esforço que tem empreendido em nome da convergência das esquerdas, naquilo que é o essencial. E creio que esse será, mesmo, o seu legado mais significativo.

Na edição de hoje do "Público", assinalando uma edição especial da ops!, pode ler-se:

Num texto intitulado “Abertura e Inovação”, o ex-deputado socialista volta ao essencial da sua mensagem na noite eleitoral, em que recomendou ao PS que no Parlamento procure preferencialmente compromissos à esquerda.

Lembrando que “quem vota nos diferentes partidos da esquerda não quer ser governado à direita”, para Alegre “custa a crer que não seja possível um mínimo denominador comum”, pelo menos nas políticas públicas, no papel do Estado, na escola pública, no Código Laboral, e nos direitos sociais, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde. “Não se pede a ninguém que abdique. Pede-se apenas a cada uma das esquerdas que seja capaz de ouvir as outras.”

A revista, aliás, pretende isso mesmo: “Contrariar o tabu da incomunicabilidade das esquerdas e estabelecer pontes para um diálogo sem agendas escondidas”, elogia Alegre. Lembrando o declínio do socialismo democrático europeu de países de peso como a Alemanha, França e Inglaterra, que “não se tem mostrado capaz de dar uma resposta inovadora e convincente às causas da crise”, Alegre cita o jornalista, historiador e antigo sindicalista francês Jacques Julliard para explicar o avanço da direita. O socialismo deixou-se “colonizar pelo neo-liberalismo” e, ao mesmo tempo, as outras esquerdas continuam “a recusar a economia de mercado e permanecem barricadas no socialismo cro-magnon”


Mais sobre o assunto, aqui.

E, com a vénia devida aos Professores Elísio Estanque e Rui Namorado, também aqui e aqui.

21.11.09

Esquerda Presente


O Clube de Política "Esquerda Presente" promoverá no próximo dia 28 de Novembro um café-tertúlia sobre "Políticas Locais de Esquerda", em Coimbra, tendo com orador o dr. Paulo Pedroso.

Mais informações aqui.