29.7.09

Vêm aí férias.

A sério.


(cortesia involuntária do "E Deus criou a mulher")

Little man?



Abaixo, interessante artigo sobre os desafios de liderança na Europa. Faz muito sentido pensar nisto, a curto prazo, sobretudo depois da eleição de Obama nos EUA e de uma certa atmosfera de "regresso da política" que, apesar de tudo, se respira.

Mas e Durão Barroso? Será ele um "little man"?

O que faz mais falta à Europa?

Teresa de Sousa, Jornal "Público"
29 de Julho de 2009



1.O que faz mais falta à Europa? Podia ser esta a pergunta prévia para a escolha do futuro presidente do Conselho Europeu. Faz sentido começar a colocá-la porque a corrida já começou e porque haverá relativamente pouco tempo para concretizá-la. Admitindo que os irlandeses aprovam no próximo dia 2 de Outubro o Tratado de Lisboa e que os presidentes checo e polaco acabarão por abandonar as suas reservas antieuropeias em assinar um tratado que os respectivos parlamentos já ratificaram, restará pouco mais de um mês aos líderes europeus para se entenderem sobre os nomes que devem preencher os lugares do topo das instituições europeias. Barroso já tem o seu lugar praticamente garantido. Ficam por preencher os cargos de alto representante para a política externa com poderes reforçados pelo novo tratado, que será também o vice-presidente da Comissão, as pastas mais importantes e mais cobiçadas do executivo e, finalmente, aquele que se aproximará mais da ideia de um presidente europeu. A presidência sueca terá de ter a sua missão concluída o mais tardar na cimeira de Dezembro.
Regressemos então à questão prévia. O que faz mais falta à Europa é uma visão comum sobre o seu lugar num mundo que está a mudar vertiginosamente e num sentido que obriga os europeus a uma corrida contra o tempo que ainda não têm a certeza de conseguir ganhar. O maior desafio que a Europa enfrenta é ser capaz de afirmar-se como actor global num mundo cada vez mais multipolar. Preservando a sua natureza multilateral e projectando-a à sua volta.
Qual é o único caminho para não perder a corrida? Uma sólida aliança estratégica com a América de Obama e a capacidade para agir concertadamente a nível internacional. Em Moscovo como em Pequim, Nova Deli ou em Brasília.

2.Até agora há apenas um nome na corrida: o de Tony Blair. O Governo britânico já oficializou a sua candidatura, abrindo as portas às mais varridas especulações. No microcosmos de Bruxelas onde se tende a olhar ainda para a velha UE como se nada ou pouca coisa tivesse mudado desde os bons velhos tempos da guerra fria, já começou a batalha contra um político que tem naturalmente pouco a ver com essa visão idealista, simpática mas também ultrapassada, fechada e pequena da Europa. Há muitos argumentos que se podem enumerar na coluna do "deve" contra o antigo primeiro-ministro britânico. Que alinhou com George W. Bush no Iraque (esta é provavelmente a pior das acusações), que não foi suficientemente europeísta para levar o seu país até ao euro. Que é demasiado liberal quando a crise económica trouxe mau nome ao liberalismo. Que fez pouco como enviado do Quarteto para o Médio Oriente (embora isso seja o reflexo do pouco ou nada que fez o próprio Quarteto). Que é muito pró-europeu pelos critérios britânicos mas pouco pró-europeu pelos critérios, por exemplo... da Bélgica.
O que é que podemos colocar no lado do haver? Que Blair tem uma ideia clara sobre o lugar da Europa no mundo e sobre a importância de se transformar num actor estratégico e que é capaz de a transmitir. Que é um político conhecido e admirado mundialmente (por apoiantes e adversários). Que tem a estatura necessária para figurar ao lado de Obama, de Putin ou de Hu Jintao, mas também de Angela Merkel ou Nicolas Sarkozy ou... David Cameron. Que tem a vantagem de ser britânico. Não haverá Europa com peso e influência mundial sem o Reino Unido. Nada preocupa mais as chancelarias europeias (particularmente Berlim) do que a perspectiva quase inevitável de ver o líder conservador britânico chegar a Downing Street e adoptar uma política europeia que nem nos seus piores sonhos poderiam ter imaginado.

3.Claro que as alternativas também contam. A favor ou contra Blair. Se a Europa quiser um "little man", como escrevia o Times de Londres, que não faça sombra a ninguém e que se entretenha nas tarefas de gestão da agenda e de negociação de consensos, terá muita gente à sua disposição. Sem qualquer ofensa para os próprios, os nomes mais falados são o de Jean-Claude Juncker, amigo de todos os líderes europeus porque é o mais antigo do Conselho Europeu, mas também o eterno Guy Vehrofstadt (vetado para presidir à Comissão quando Barroso ganhou) ou o já quase esquecido Wolfgang Schussel, antigo chanceler austríaco. Haverá outros. Mas isso quereria dizer que os "grandes" tinham definitivamente optado por uma Europa que fosse o resultado (inevitavelmente mínimo) da soma dos respectivos interesses nacionais de curto prazo.
Se a escolha for por um "big man", voltando de novo ao Times, fica logo à partida bastante reduzida, ainda que não limitada, a Blair.
Há, na verdade, um candidato quase perfeito, se me é permitido o exagero, que se chama Felipe González. Tem todas as vantagens de Blair - estatura internacional, visão do mundo, capacidade política -, com a vantagem adicional de ser um crente mais firme na integração política europeia. Diz-se que pode não estar interessado. É difícil de acreditar que não se deixe tentar. Não foi certamente por acaso que aceitou há dois anos a presidência do grupo de "sábios" que os líderes europeus criaram para pensar a Europa no longo prazo.
Tem, todavia, um senão: com Barroso na Comissão, o peso ibérico seria demasiado grande. O facto não devia ser impeditivo mesmo que provocasse muitas e variadas reclamações. E o Norte poderia ser compensado com a escolha do futuro chefe da diplomacia europeia, que os países nórdicos ambicionam e para o qual têm, aliás, alguns candidatos. Olli Rhen, o actual comissário finlandês para o alargamento, é um deles. Outro é Carl Bildt, o chefe da diplomacia sueca, aliás com fortes credenciais para o cargo. E nomes com tão boas credenciais europeias como Chris Patten ou Joschka Fischer poderiam ser também considerados.
A questão é perceber que estas escolhas serão fundamentais. Se os líderes europeus (sobretudo dos "grandes") optarem por uma figura mais pálida, capaz de moderar negociações internas mas incapaz de personificar a Europa para os europeus e para o mundo, então isso será um sinal de que estamos em risco de perder a corrida. Se optarem por Blair ou González, pode ser que a Europa ainda consiga não ficar para trás.

28.7.09

Relativamente felizes



Não é verdade que haja insegurança em Coimbra. Ou melhor, não haverá em Coimbra menos insegurança do que no mundo, em geral, que como se sabe, não está para brincadeiras. Os números estão lá para quem quiser ver e, lamento desiludir, também neste item, Coimbra não se assemelha a uma grande cidade.

Para os teóricos destas questões, a insegurança está associada a um certo desregramento no crescimento das cidades, do seu tecido económico-social. Ora, como Coimbra não cresce grande coisa, vai para uns anos valentes, nem o tal tecido chega para muito mais do que um cai-cai, não há, em Coimbra dores - pelo menos, não de crescimento - a assinalar.

Pelos entremeios, claro que há assaltos e episódios de violência em Coimbra. Circunscritos e perfeitamente identificados. Que as vítimas têm o direito de valorizar e que, claro, a comunicação social não deixará de noticiar, quando não de amplificar.

É mesmo assim. Não se passando nada de jeito em Coimbra, para além da habitual grosseria político-partidária e das saídas delicodoces do dr. Encarnação; não havendo um projecto de cidade para discutir ou investimentos para anunciar; não se vislumbrando a criação de novos empregos ou a realização de iniciativas culturais relevantes - vocês sabem do que eu estou a falar - a comunicação social volta-se para o que pode. E o crime, pelo menos algum crime, faz sempre uma manchete graúda.

Às notícias sobre insegurança na baixa, o dr. Encarnação deveria responder, por exemplo, colocando a sua polícia municipal a fazer vigilância, em vez de nos ir à carteira e de nos rebocar, sofregamente, os automóveis. Prefere, no entanto, para além de forçar os agentes municipais a comportarem-se como “cobradores do fraque”, fingir que lhes desconhece as competências e retomar, compulsivamente, a sua ladainha.

Vai dizendo que nos ama e que odeia o Governo que, por sua vez - assegura - nos odeia a nós que, na sua opinião, devemos amá-lo e respeitá-lo a ele, Carlos, alindá-lo com uma flor de laranjeira e levá-lo ao altar. Casados à força, uma vez mais - não creio que por amor - seremos relativamente felizes para sempre. Ou até um dia.

27.7.09

Preview

"Não é verdade que haja insegurança em Coimbra. Ou melhor, não haverá em Coimbra menos insegurança do que no mundo, em geral, que como se sabe, não está para brincadeiras. Os números estão lá para quem quiser ver e, lamento desiludir, também neste item, Coimbra não se assemelha a uma grande cidade."

(...)

26.7.09

O seu a seu dono

O Ricardo Castanheira foi recentemente premiado pela Microsoft, em virtude do seu desempenho profissional, nos quadros da empresa.

Ora, o Ricardo é um socialista de Coimbra. Foi deputado muito jovem e presidiu à FDTI, nomeado pelo actual governo. É pena - não sendo surpreendente - que o PS Coimbra se remeta, quanto àquele prémio, ao silêncio.

Honestamente, não creio que nos partidos só estejam obscuros malfeitores e, menos ainda, que a vida fora deles seja um paraíso de virgens esclarecidas. Mas assinalo que há muita gente boa a afastar-se da política, dos partidos e de...Coimbra.

Fica, da minha parte, um abraço, sincero, ao Ricardo.

22.7.09

O António faz (muita) falta!




OBAMA É UMA CONDIÇÃO NECESSÁRIA, MAS AINDA NÃO SABEMOS SE É SUFICIENTE

22.07.2009


O estado do mundo segundo o homem de quem depende a sorte das vítimas mais vulneráveis dos conflitos internacionais. O seu apelo é que seja dada aos problemas humanos a mesma atenção que é dada aos problemas financeiros. Por Teresa de Sousa

Há muito que já não olha o mundo a partir de S. Bento ou do Conselho Europeu. Passou a vê-lo do lado dos dois milhões de refugiados e deslocados que estão à sua responsabilidade no Paquistão. Com muito mais pessimismo. Não por estar ao lado das vítimas mais vulneráveis das crises internacionais mas porque pensa que os últimos 10 anos foram de retrocesso nas relações internacionais. A sua ideia é a de que é preciso "globalizar" os direitos humanos e tentar de novo colocá-los no centro da agenda mundial. Obama é a condição necessária mas ainda não a suficiente. Olha a Europa com crescente descrença.
António Guterres, 60 anos, ex-primeiro-ministro português, é há quatro anos o alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Está a fazer aquilo que queria fazer nesta altura da vida. Veio a Lisboa receber o Prémio Internacional Calouste Gulbenkian.


Li recentemente no Guardian um artigo seu em que faz a seguinte afirmação: "A mesma comunidade internacional que se sentiu obrigada a gastar centenas de milhares de milhões para salvar o sistema financeiro devia também sentir-se obrigada a salvar as pessoas que estão neste grau desesperado de necessidade." É uma afirmação duríssima.
Não tem medo de ser acusado de demagogia?


Não peço que seja gasto o mesmo dinheiro que foi gasto para salvar o sistema financeiro. Se o fizesse seria demagogo. O que peço é que seja dada a mesma atenção aos problemas humanos que é dada aos problemas financeiros. Porque, se isso for feito, não tenho dúvidas de que serão adoptadas estratégias de prevenção e de apoio à solução de conflitos que evitarão que muita gente venha a encontrar-se nas situações dramáticas com que tenho convivido. E porque, se isso acontecer, os recursos à disposição dos que estão envolvidos em operações humanitárias à escala global poderão, ao menos, cobrir uma grande parte das necessidades mais dramáticas que ainda estão sem resposta.

Está a dizer que não há essa atenção.

Isso é evidente. Se reparar, verifica que o financeiro recebe sempre mais atenção que o económico, o económico mais atenção que o social e o social mais atenção do que o humanitário. Dramas humanitários como os que se vivem na República Democrática do Congo ou na República Centro-Africana estão hoje completamente esquecidos do debate internacional e nesses países continua a haver milhares e milhares de pessoas que morrem indevidamente ou que são vítimas das mais graves violações dos seus direitos, permanecendo a impossibilidade de fazer frente a estas situações.

Ler mais, no Público.

21.7.09

Perguntas sem resposta



Eduardo Lourenço visitou Coimbra na passada semana, a convite das Fundações Inatel e Mário Soares, para falar das “novas respostas da cultura”. Não desiludiu, como se previa, e acabou por deixar claro, depois de um impressionante exercício de reflexão, que afinal não há resposta nenhuma. Desenganou depressa os que contavam com o esplendor da cultura para resolver os males do mundo. A cultura não é a resposta, é a própria pergunta. Uma força interior que distingue os homens dos bichos e que lhes garante a liberdade de uma existência original, uma existência que a natureza - por si só - não determina.

Esta ideia - que acaba por ser uma resposta estimulante - fez pesarosa notícia nos jornais. E, para além dela, fez notícia o “alerta” (expressão dos jornais, não do filósofo) de que a “humanidade vive um apocalipse suspenso”. Os jornais, como de costume, a decretarem, assim, o próprio apocalipse, e desta forma a des-suspenderem-no, neste tempo em que a existência das coisas se confunde com o seu anúncio.

Não creio, embora possa ter percebido mal, que ao “aliviar” a cultura de responder, pelo menos convencionalmente, aos desafios sociais, o professor Eduardo Lourenço quisesse desesperar o povo. Como não creio que pretendesse o filósofo precipitar o apocalipse, anunciar a derrocada do mundo em Coimbra, como as notícias entretanto publicadas parecem indiciar. A ruína da humanidade, ou chegará sem aviso, ou não creio que se faça anunciar na Rua Pedro Monteiro, à Sereia. Por outro lado, essa “notícia”, como revelação final, acabada, do pensamento culto, como a inapelável sentença de um cultor é, de certo modo, incompatível com a tal ideia - inspiradora, digo eu - de que a cultura é a pergunta, não é a resposta.

Faltou contar o modo como Eduardo Lourenço começou a sua exposição, revelando aos presentes que, no seu tempo de estudante em Coimbra, os professores da cidade não davam aqui conferências. Eram os estrangeiros, os que vinham de fora - como que de um paraíso longínquo - que encantavam os intelectuais da cidade, como se fossem verdadeiros enviados celestes. Ficou no ar que o fascínio pelos conferencistas estrangeiros - não faltando em Coimbra intelectuais de prestígio - era, sobretudo, consequência dessa sua condição. O desprezo pelos santos da casa e o apreço pelos forasteiros.

No caso de Eduardo Lourenço, em todo o caso uma personalidade genial, não é fácil saber se o seu afastamento do país concorre muito ou pouco para o entusiasmo, incomum, com que a cidade o recebe - o autor de “O Labirinto da Saudade”, não sendo estrangeiro, é pelo menos estrangeirado. Mas fica por saber, sobretudo, se foi inocente aquele comentário, vindo de um irreverente psicanalista da sociedade portuguesa, que conhece bem Coimbra e, decerto, muitas das suas idiossincrasias. Os jornais não tocaram no assunto. E eu tive - por mim, não por Coimbra, entenda-se - vergonha de perguntar.