9.11.09

Não chegam ao céu

Vozes de burro.

Uma assembleia de esquerda


Num texto recente, sugeri a eleição à esquerda de um presidente para a Assembleia Municipal de Coimbra. Se a lei permite e os cidadãos confiam, não devem as cúpulas partidárias excluir a possibilidade de assembleias e executivos municipais de sinal diferente. Essa seria uma oportunidade para inaugurar a convergência das esquerdas, em Coimbra, por esdrúxula que a ideia se possa afigurar. Mas não me estenderei no argumentário, senão para dizer que outra concepção defrauda quem, nas urnas, botou a cruz em quadradinhos diferentes, para a Câmara e para Assembleia. Anulando, nesses casos, pelo menos um dos votos.

Mas isso agora interessa pouco e o facto é que até me alegrei, semana fora, ao ler na imprensa que o que antes parecia ser uma posição de princípio contra a eleição de Helena Freitas dava, aparentemente, lugar à determinação contrária. Alegrei-me, não que me convencesse da persuasão dos meus argumentos, sequer da sua idoneidade moral, mas porque, no fim de contas, por razões eventualmente transcendentes, teríamos uma presidente de Assembleia Municipal eleita pela esquerda.

Observo agora, conhecida a reeleição de Manuel Porto, que a esquerda foi tímida nos esforços que desenvolveu. E que, com efeito, não é de esquerda o presidente da Assembleia Municipal de Coimbra. Mas é de esquerda, continua a ser de esquerda, a Assembleia, ela própria, facto a que, já agora, não deixarei de pedir consequência. Resolvida a eleição dos cidadãos a ou b para a mesa da assembleia, chegou a hora de tratar da política, propriamente dita.

É que a política, a dita cuja, anda demasiado sequestrada pelos seus protagonistas, pelas opções de vaidade, antes de se iluminar pelas ideias que transporta, pela nobreza dos propósitos e pelos resultados da acção. O que, se pensarmos bem, nem sequer é uma tendência recente: o culto da personalidade perpassa toda a história e ciência políticas. Apenas que cada um trate de assumir, claramente, uma posição sobre o assunto. A minha inclina-se para a urgência de uma esquerda que assuma, sem ambiguidade, as suas ideias políticas. E que deixe de lado o perfil ou a estatura dos protagonistas, pelo menos na acepção que a Ana Salazar privilegiaria.

Coimbra precisa de uma esquerda una, que promova um desenvolvimento urbano sustentável; que perceba que a segurança não se resolve pelo casse-tête, antes depende da integração económica e social das comunidades; que assuma a participação dos cidadãos como condição de vitalidade democrática; que eleve as consciências através da cultura, ao invés de as apascentar; e que não se limite a assobiar para o lado do Governo, quando chamada a pronunciar-se sobre o desemprego ou o definhamento industrial.

Até desejo felicidades ao professor Manuel Porto. Mas, claro, se elas não dependerem de uma esquerda resignada, apática ou disforme.

5.11.09

Sempre ao dispor.

A ser verdadeira esta notícia, não foi mal empregue o tempo que gastei a escrever isto.

4.11.09

Vieira da Silva

Ouvi hoje o Ministro Vieira da Silva dizer que vai rever os termos de apoio às PME´s.
Quero acreditar que o fará transferindo para o Ministério da Economia a filosofia que imprimiu no Ministério da Segurança Social - Maior preocupação com as empresas em dificuldade e com os seus trabalhadores: Menor ortodoxia de mercado.

2.11.09

Regresso ao Futuro


Coimbra, 12 de Outubro de 2013. O Partido Socialista (PS) venceu ontem as eleições autárquicas em Coimbra. A afluência às urnas, que à hora de fecho concentrava centenas de eleitores junto à Escola Avelar Brotero, anunciava já uma mudança radical na relação da cidade com os seus políticos e sugeria a vitória do PS, depois de um terceiro mandato de Carlos Encarnação sem rasgo, penoso para o próprio e, novamente, marcado por conflitos no executivo municipal.

Mais de dez anos volvidos desde que os socialistas de Coimbra perderam a presidência da Câmara, em 2001 – o que lhes ditou uma travessia difícil, com divisões internas aparentemente insanáveis e com um significativo divórcio entre a esquerda democrática de Coimbra e a sua filiação natural – o PS vinha dando, paulatinamente, sinais de mudança. Acredita-se que a Declaração de Coimbra, subscrita em Abril de 2011, foi o decisivo momento de viragem, depois do Congresso “Coimbra Merece Melhor”, onde os socialistas fizeram, finalmente, a sua catarse, alcançando uma ampla base de convergência interna.

A Declaração de Coimbra confortava, nas suas propostas, aqueles que vinham reclamando uma viragem à esquerda no PS, que exigiam um compromisso ético irrepreensível e manifestavam reservas quanto à excessiva profissionalização da política; ao mesmo tempo que acolhia uma visão tolerante e fraterna na organização partidária; e revelava um caminho de irreverência para o futuro de Coimbra, negando todas as formas de conservadorismo, resignação ou favorecimento.

Já em 2009, a candidatura de Álvaro Maia Seco havia representado um passo importante no que se convencionou chamar a regeneração do PS-Coimbra. Pode dizer-se até que o perfil do candidato e a sua competência profissional eram, naquela altura, precursores do compromisso que veio a ganhar letra de forma na Declaração de Coimbra. Apenas que, à data, os sinais de mudança no partido eram pálidos e havia, ainda, um longo caminho a percorrer.

Com efeito, a derrota de 2009 acabou por confrontar os socialistas de Coimbra com o seu próprio esgotamento e o processo de renovação que daí arrancou levou a que parassem, finalmente, de ajustar contas com o passado. Era preciso ajustá-las, antes, com o futuro. E quem teve a oportunidade de olhar as mulheres e os homens, velhos e novos, milhares de conimbricenses, que se concentraram durante toda a noite de ontem na Praça 8 de Maio – um mar de povo radiante – percebe que as contas foram, agora, finalmente, saldadas. É pois tempo de lançar mãos à obra.

27.10.09

Assembleia, sem ambição



Eu gostava que a próxima presidente da assembleia municipal de Coimbra fosse a professora Helena Freitas. Concretamente, gostava que a sua eleição reflectisse a maioria de mandatos que a população confiou à esquerda política, nas últimas eleições autárquicas. Mas, tanto quanto consigo alcançar, não é o que vai suceder. Para pena minha, pois acho que isso representa um entorse democrático e, talvez mais grave ainda, uma oportunidade perdida.

Os executivos mistos e as assembleias municipais de sinal contrário ao executivo, ao pretenderem introduzir uma nota de pluralismo no governo das autarquias, fracassam sempre que redundam num bloqueio sistemático, ditado pelos estados de alma partidários, mais do que pelo interesse público municipal. Porém, a única coisa que esta opinião me concede é o direito, talvez o dever, de lutar pela respectiva reforma legislativa, de devolver a palavra ao juízo dos eleitores e esperar que, lá das profundezas democráticas, venha uma sentença do meu agrado. Caso contrário, posso ainda escrever e falar sobre o assunto, talvez rasgar as vestes frente a um órgão de soberania, mas é tudo, e não é pouco, o que o regime tem para me consolar.

No caso das assembleia municipais, a lei abriu a possibilidade de conformarem uma maioria diferente da que preside ao executivo e, com o devido respeito, as opiniões de cada um sobre o assunto não devem determinar, a priori, a exclusão dessa possibilidade. Acho, pois, que eleger Helena Freitas como presidente da Assembleia Municipal de Coimbra deveria ser uma opção seriamente ponderada, ao invés de esbarrar, como parece ter esbarrado, na opinião – de resto, contrária ao espírito da lei – de que quem ganhou as eleições para o executivo, mesmo não tendo maioria na assembleia, deve escolher o respectivo presidente. Se o PS fizesse eleger a sua cabeça de lista como presidente da Assembleia Municipal de Coimbra, teria uma boa ocasião para se afirmar como um partido responsável e sensato, não impedindo Carlos Encarnação de governar, mas fiscalizando-o à esquerda, como decidiu o povo, no último dia 11 de Outubro. O que me remete, finalmente, para a ideia da oportunidade perdida.

Com efeito, defendo há bastante tempo que as candidaturas autárquicas do PS, em Coimbra, deveriam passar por uma coligação à esquerda: aberta, plural e tolerante. Não apenas porque a direita já perdeu há muito os seus complexos na matéria, apresentando-se coligada, mas também porque julgo ser essa a melhor forma de interpretar o sentido de voto dos eleitores de Coimbra, nas sucessivas eleições. E também, ainda, porque acredito em políticas locais de esquerda, o que já explicitei no passado e terei gosto em explicitar num futuro muito próximo.

Razões que me transcendem – e que parecem ser mesmo transcendentes – têm impedido esse entendimento. Mas julgo que este acordo para a Assembleia Municipal seria um bom primeiro passo. E que a sua recusa, a priori, é um tremendo desperdício.

Fica o desabafo e uma nota de perplexidade: a decisão parece estar tomada sem que, para o efeito, se pronuncie o órgão próprio do partido.

22.10.09

Esclarecimento

Notícia hoje publicada pelo “Campeão das Províncias” sugere-me o seguinte esclarecimento:

1.Não há nenhum processo eleitoral em curso no seio da Concelhia de Coimbra do PS, o que, desde logo, impede que eu seja candidato à presidência daquele órgão.

2.A Concelhia de Coimbra em funções termina o seu mandato em Abril próximo, foi democraticamente eleita e deve ser, como tal, respeitada.

3.O acima exposto e a dignidade com que os candidatos do PS se bateram nas últimas eleições autárquicas – ainda há pouco mais de uma semana! – recomendam contenção.

4.Outra actuação até pode ditar vitórias internas, mas não logrará obter o respeito dos cidadãos.

5.As eleições internas, dentro do PS Coimbra, devem deixar de ajustar contas com o passado. E era bom que passassem a ajustar contas com o futuro!

6.O PS Coimbra só voltará ao fulgor de outros tempos quando for, simultaneamente, um partido próximo dos militantes, eticamente irrepreensível, intelectualmente estimulante e genuinamente fraterno. Sem reunir estas condições, não ponderarei “perfilar-me” para qualquer candidatura.