9.11.10

Passar à ordenha


Em quanto é que as medidas de austeridade me afectarão a carteira? Esta é, provavelmente, a pergunta que os portugueses mais fazem a si próprios, nos últimos dias. E é compreensível. De uma forma ou de outra, tem ganho terreno a ideia de que o preço a pagar pelo desaire orçamental do país sairá – injustamente – do orçamento familiar dos contribuintes. Aqui, como em tantas outras coisas na vida, encontramos um fundo de verdade, mas também, entenda-se, alguma espuma de mentira.

É verdade que conferimos um mandato a sucessivos governos para, em nosso nome e no interesse colectivo, assegurarem as contas e tratarem da “governação”, coisa a que, modernamente, alguns chamam “governança”. Mas também é verdade que, na prática, nos limitámos a esperar dela o desempenho de uma governanta. Reclamámos uma gestora eficiente da casa, mas, de preferência, ao ponto de nem sequer darmos pela dita, até à renovação do contrato. Não admira, agora, que a revelação de um buraco, desde o talho e até à frutaria, nos apanhasse desprevenidos. De facto, não é despropósito pensar que – possa embora a governanta ter arrecadado meia dúzia de cachos de uva e uma ou outra costoleta de novilho – ainda nos caiu no bucho parte muito significativa do cabaz. Leia-se, casa própria, carro novo de dois em dois anos, LCD´s, telemóveis de última geração, Sport TV, férias de areia branca, enfim, o mínimo para uma existência com dignidade.

Se pretendo com estas linhas branquear a responsabilidade de sucessivos governos e a irremediabilidade de reformar o regime? Quem me conhece sabe que não. Mas, com franqueza, acredito que o tempo não é de pedir responsabilidades, é antes de as assumir.

Em Coimbra, começaram e hão-de continuar as contas sobre o que perderemos em consequência do próximo Orçamento de Estado e – parece que já estou a ouvir o dr. Encarnação – da vilania do Governo. A ele se seguirão outros – políticos vários – que tratarão de dissecar o famigerado PIDDAC, coisa que, ainda não perceberam, a maior parte das pessoas não sabe, nem quer saber, o que é.

Para lá dos jogos de bastidores, do confronto partidário e do politiquês, era bom que, ao menos em Coimbra, começasse a ganhar forma uma outra filosofia, que se abstivesse de estender a mão a Lisboa e, pelo contrário, favorecesse, com ideias, com iniciativa e com criação de riqueza, o desenvolvimento nacional. Eu acredito que a cidade tem as pessoas e as competências para o fazer. Falta apenas que a necessidade, ao invés de as derrotar, lhes aguce o engenho.

Interessa pouco perguntar o que o Governo pode fazer por Coimbra. Até porque já todos sabemos a resposta. Por mim, acho que é tempo de perguntar o que Coimbra pode fazer, não pelo Governo, mas pelo país. Ao ponto a que chegámos – e colocando as coisa de outra forma - antes de chorar sobre o leite derramado, o tempo é de arregaçar as mangas e de passar, isso mesmo, à ordenha.