27.12.10

O lóbi de Coimbra


Vai longe o tempo em que o chamado peso de Coimbra se forjava a partir da Universidade e, quase em paralelo, dos seus naturais que ocupavam lugares no Governo. Dispenso-me de os arrolar, porque são sobejamente conhecidos, mas adianto –para que este escrito não se pareça com uma coisa de claque partidária – que foram diversos os quadrantes da política nacional que recrutararam os seus quadros mais relevantes na “cidade dos estudantes”.

Porém, os tempos mudaram. E mesmo procurando não cair na tentação, simplista, de argumentar com a perda de importância da Universidade de Coimbra no contexto nacional ou com a falta de qualidade dos protagonistas políticos locais, a verdade é que Coimbra tem que lidar, objectivamente, com uma indisfarçável perda de influência, que lhe tem valido, aliás, os maiores dissabores. Episódios como o do Metro Mondego ou o do Pediátrico, não são expressão de uma particular antipatia deste ou daquele Governo em relação a Coimbra. São o resultado de uma cidade que se acoitou, que se contempla a si própria com eternas saudades do futuro, que se consome por dentro em lutas intestinas e que, talvez por isso, não desperta a simpatia de quase ninguém. Sendo também certo que as grandes conquistas de Coimbra nunca foram responsabilidade exclusiva de um só Governo ou de um só partido. Foram antes produto de uma certa coesão interior, de cumplicidades várias que, nos momentos essenciais, souberam pôr os interesses da cidade à frente dos seus interesses próprios. É isso que nos falta, agora. Falta-nos um lóbi de Coimbra, mais até do que um representante no sacrossanto governo da nação. Coisa que, hoje, é mais difícil do que nunca. Porquê? Pelo seguinte.

Tanto quanto consigo perceber, mais cedo do que tarde – algures durante a próxima década – Coimbra voltará a ter Secretários de Estado e Ministros, quem sabe um Primeiro-Ministro, em Governos, quer no PS, quer no PSD. Digo isto porque conheço a valia de alguns quadros, à beira da maioridade política (que só se cumpre pelos quarenta, como é sabido) e que têm condições para lá chegar, com naturalidade. Acontece que a maior parte deles já não reside em Coimbra há vários anos e conversa pouco, entre si, sobre o futuro da cidade. Alguns acharão mesmo, não sem alguma justiça, que a cidade nunca lhes deu o reconhecimento devido. E acharão, também, que quando lá chegarem, isso será, não por serem de Coimbra, mas apesar de serem de Coimbra. Ora, para quem pensa que é dramático não termos bons representantes na política nacional, imagine o que será quando os tivermos, mas sem qualquer proveito para a cidade.

Para já, fico-me por aqui. Mas penso que, hoje, não é arriscado dizer que o lóbi de Coimbra não passa, propriamente, pelas tertúlias da (ou na) cidade. Muitas delas estão cheias, é certo. Mas de si próprias, sobretudo. E de cadeiras vazias.

21.12.10

The show must go on


O Dr. Encarnação não está para aturar o Governo. Foi deste modo requintado que se despediu da Praça 8 de Maio. O seu vice-presidente – que é um rapaz novo – que o ature, insinuou à saída. E quanto aos conimbricenses, deixou-lhes os mais calorosos votos de Natal que poderiam desejar: que se amanhem os conimbricenses!

Desapontado, registo que terminou sem lustro e sem graça, a era Encarnação na Câmara de Coimbra. Desejo-lhe, a partir desta modesta tribuna, uma santa reforma – na certeza de que a terá – e despeço-me com um abraço, sem olhar para trás. Não sou de chorar sobre o passado e, para o que importa, o dr. Encarnação faz, oficialmente, parte do passado. Cá me terei que amanhar também, na certeza de que estas crónicas não serão as mesmas, agora que perdi a mais dilecta das minhas musas.

Mas devo acrescentar que me sinto traído. Não pela política, porque aí a malandrice já se tornou uma regra e, nesses termos, traição seria se os eleitos se comportassem como devem. Sinto-me, no entanto, como se o Dr. Encarnação tivesse um contrato comigo e, sem me pedir autorização, tivesse cedido a sua posição a um terceiro, quase desconhecido.

Foram anos de convivência, domingo após domingo, procurando sempre apresentá-lo aos olhos do país, à terça-feira, sem lhe injustiçar a figura. Em consciência, acho que consegui fazê-lo, numa boa parte das vezes. E agora, sei que vai levar tempo até descobrir o melhor perfil do novel presidente da câmara de Coimbra. Manter-me-ei, por isso, relutante, em abrir-lhe as portas dos meus domingos. Como o Dr. Encarnação, sou um romântico. Nunca fui de saltar de nenúfar em nenúfar, sem me recompor. É isso que farei, também desta vez. E sugiro, já agora, que outros o façam.

Repito que o povo está habituado à malandrice dos políticos. E não é expectável que esta passagem de testemunho na câmara de Coimbra fragilize, só por si, futuras candidaturas do PSD à liderança do Municipio. Arrisco mesmo dizer que antes pelo contrário. O PSD parece ter encontrado um novo protagonista e o modo de, atempadamente, preparar a sua candidatura. Por muito que custe, é isso mesmo que o PS também deve fazer. Bem e depressa. The show must go on.

7.12.10

Dois selos e um carimbo


Dois selos e um carimbo, é o nome do último álbum dos Deolinda. Mas também podia ser o título do último livro do dr. Carlos Encarnação. Os muitos fãs da banda portuguesa talvez não se revejam no peculiar paso doble do presidente da Câmara de Coimbra e é natural que estranhem, por isso, esta minha comparação. Mas a esses falta-lhes conhecer, porventura, o que levou os Deolinda a baptizar, naqueles termos, o seu segundo – e último, para já – trabalho de temas originais. Esclarece a vocalista, Ana Bacalhau, que pretendem selar, com todas as formalidades, a sua identidade artística. Ora, aqui já se antevêem, com maior nitidez, os termos da comparação.

Com efeito, no caso do edil de Coimbra, não se tratará de uma afirmação artística já que, arte por arte, devo reconhecer que a sua é sobejamente conhecida e reclama, a todo o tempo, ser coroada com um prémio carreira. Mas a verdade é que “A justiça transparente” – nome aliás de particular inspiração – casa lindamente com a intenção de “Dois selos e um carimbo”. Usando de todas as formalidades – chamando mesmo a Coimbra o notário do regime, leia-se, o professor Marcelo – o dr. Encarnação ditou ante a cidade aquela que é, afinal, a derradeira palavra sobre si próprio: uma compilação de decisões judiciais, todas a contento da Câmara Municipal de Coimbra. Ocorre-me dizer que, nestes tempos de incerteza, poucas coisas serão tão tranquilizadoras e dignas de crédito como uma sentença de um juiz, homologada por um político e registada por um comentador televisivo. Pode, pois, descansar em paz, o bom povo coimbrão.

Mas colocando os elogios de parte – às vezes excedo-me nestes mimos – o que eu quero mesmo é desmentir, com quantas forças trago no corpo, o boato vil que, ainda o livro não estava nas bancas, já pululava nos jornais, nos blogues e nas conversas de corredor. A insinuação malévola de que o dr. Encarnação seria capaz de trair a confiança dos seus munícipes e dar às de Vila Diogo, antes mesmo de acabar o mandato. Mais, que isso faria tudo parte de um plano, combinado antes das eleições, no interior do PSD (imagine-se!), para passar o testemunho e ir gozar a reforma descansadinho. Não há direito. Só quem não leu as suas declarações, na própria apresentação do livro, seria capaz de reproduzir semelhante baboseira. Ele não aceita, e muito bem, que ponham em causa a sua honorabilidade. E eu, para dizer a verdade, acho de muito mau gosto que o façam deste modo infame.

23.11.10

De calças na mão


Comovido, li as declarações do vice-presidente e responsável financeiro da Câmara de Coimbra, publicadas na última edição do semanário Expresso. Instado sobre quais as medidas que a autarquia havia tomado, para poupar em tempo de crise, o edil puxou dos galões e revelou, com gravidade: centralizámos a impressão de cópias e rumámos para a digitalização de processos. Ainda não refeito, dei por mim a pensar no privilégio que é poder contar com a disponibilidade de gestores tão criativos, na administração das contas públicas. E pensei também: ainda que nem todos – como em Coimbra – possam contar nas suas fileiras com performances deste gabarito, pelo menos, conforta-me pensar que todos, nas restantes autarquias, nas empresas públicas e no país, possam beber do seu inspirador exemplo.

Que bom seria se, seguindo a lição coimbrã, outras autarquias resolvessem tomar medidas daquele fôlego. Se os gestores de algumas empresas públicas fossem capazes de alcançar uma tão extraordinária eficiência. Se ao governo ocorresse semelhante arrojo.

Imagine-se que em S. Bento deixava de haver croissants para o pequeno-almoço e os comensais se bastavam com pão saloio. Imagine-se que, nas empresas públicas, acabavam as reuniões-almoço e se começava a tratar de assuntos sérios em redor de uma mesa de trabalho, com uma folha de papel A4 e uma caneta Bic. Não havia FMI que nos parasse.

Para dizer a verdade, o grave não é que se tomem medidas como a da “centralização de cópias” que, aliás, devia ser norma há pelo menos uma década. Não cabe na cabeça de ninguém que cada um imprima a bel prazer, em dezenas de impressoras jacto de tinta, como é costume acontecer e como, pelos vistos, só deixou de acontecer em Coimbra há alguns meses. O problema é que se tenha o desplante de apresentar estas coisas como paradigmáticas e tonitruantes medidas de combate à crise.

Lamentavelmente, a resposta do vice-presidente da Câmara de Coimbra – pessoa que considero e que só distraidamente terá dito semelhante coisa – é sintomática de uma certa filosofia de gestão, no sector público, que confunde razoabilidade com racionalidade. E que vai passando impune, nas páginas dos jornais, no bas fond dos gabinetes, na intelligentia dos partidos políticos. Em tempos de crise, exige-se mais do que mera razoabilidade na gestão diária. Exige-se uma verdadeira racionalidade, coisa que a maior parte dos nossos “gestores” públicos não alcança, de todo.

O que me preocupa no meio disto é que, enquanto pede aos cidadãos para apertar o cinto, uma parte dos mandantes se limite, apenas, a trocar de calças. Está visto que podemos esperar sentados pelo dia em que, também esses, apertarão o cinto. Não que falte muito (até acho que não falta), mas porque essa será a posição mais confortável quando já estivermos todos de calças na mão.

16.11.10

Fazer até estar feito


Quando era miúdo, costumava apresentar uma máxima aos que arriscavam embarcavar comigo em certas aventuras. Rezava mais ao menos assim: primeiro faz-se, pensa-se no preço depois. Hoje – seja porque o dinheiro me sai do bolso, seja porque a crise nos prescreve maior austeridade – podemos dizer que era uma máxima imbecil. E, com efeito, era. Apenas que, à data, a velha máxima tinha uma intenção especifica: provocar as cabecinhas mais acomodadas e fazer. Fazer, fazer, fazer, até estar feito. Confesso que a uso ainda, às vezes.

Nunca gostei muito de reuniões. Tenho um amigo que costuma dizer que elas são excelentes pretextos para fazer coisa nenhuma. E é assim, de facto. De resto, é nas reuniões que se deitam por terra os melhores projectos, as melhores ideias, só porque alguém se lembra de dizer esta coisa simples: não temos dinheiro para isso. Em resposta, uma de três: fazemos com menos dinheiro, vamos à procura do dinheiro ou não fazemos. Ganha, normalmente, esta última. E volta-se à estaca zero.

Sempre pensei assim Talvez por isso não tenha chegado à capa da Forbes, é certo. Mas acredito que as boas ideias valem por si. E, por isso, é o dinheiro que deve andar atrás delas, não o contrário. A velha provocação – que às vezes ainda uso – tinha, na verdade, o seguinte sentido. Não matem as ideias antes mesmo de as discutirem. Uma versão mais tosca – se quiserem – da vida para além do défice, em boa hora revelada pelo dr. Sampaio.

Chega-me isto depois de ler a notícia de mais uma edição dos Caminhos do Cinema Português. No registo habitual, é certo: “não há dinheiro, sobrevivemos com dificuldades, escasseiam apoios”. Mas apresentando, de facto, mais uma edição. Promovesse a organização do Festival demasiadas reuniões, desse ela muita guarida aos detractores do costume e, tenho a certeza, não haveria Festival para ninguém. Mas como aquilo é gente de arregaçar as mangas e passar à ordenha, mesmo sem dinheiro, a verdade é que já vamos na edição, imagine-se, décima sétima.

A isto acresce – por exemplo – que está quase a cumprir-se um ano inteirinho de Mercado Quebra-Costas. Um verdadeiro banho de cultura urbana oferecido à cidade. Também “sem dinheiro”, mas cujo balanço – e vejam como também sei usar vocabulário financeiro – é muito positivo.

A moral da história? Nos tempos que correm, seria imoral remetê-la para a virtude de gastarmos mais do que temos. Fico-me pela urgência de fazermos – e fazermos bem – tudo o que pudermos. Coisa que, na pior das hipóteses, nos tiraria da crise.

9.11.10

Passar à ordenha


Em quanto é que as medidas de austeridade me afectarão a carteira? Esta é, provavelmente, a pergunta que os portugueses mais fazem a si próprios, nos últimos dias. E é compreensível. De uma forma ou de outra, tem ganho terreno a ideia de que o preço a pagar pelo desaire orçamental do país sairá – injustamente – do orçamento familiar dos contribuintes. Aqui, como em tantas outras coisas na vida, encontramos um fundo de verdade, mas também, entenda-se, alguma espuma de mentira.

É verdade que conferimos um mandato a sucessivos governos para, em nosso nome e no interesse colectivo, assegurarem as contas e tratarem da “governação”, coisa a que, modernamente, alguns chamam “governança”. Mas também é verdade que, na prática, nos limitámos a esperar dela o desempenho de uma governanta. Reclamámos uma gestora eficiente da casa, mas, de preferência, ao ponto de nem sequer darmos pela dita, até à renovação do contrato. Não admira, agora, que a revelação de um buraco, desde o talho e até à frutaria, nos apanhasse desprevenidos. De facto, não é despropósito pensar que – possa embora a governanta ter arrecadado meia dúzia de cachos de uva e uma ou outra costoleta de novilho – ainda nos caiu no bucho parte muito significativa do cabaz. Leia-se, casa própria, carro novo de dois em dois anos, LCD´s, telemóveis de última geração, Sport TV, férias de areia branca, enfim, o mínimo para uma existência com dignidade.

Se pretendo com estas linhas branquear a responsabilidade de sucessivos governos e a irremediabilidade de reformar o regime? Quem me conhece sabe que não. Mas, com franqueza, acredito que o tempo não é de pedir responsabilidades, é antes de as assumir.

Em Coimbra, começaram e hão-de continuar as contas sobre o que perderemos em consequência do próximo Orçamento de Estado e – parece que já estou a ouvir o dr. Encarnação – da vilania do Governo. A ele se seguirão outros – políticos vários – que tratarão de dissecar o famigerado PIDDAC, coisa que, ainda não perceberam, a maior parte das pessoas não sabe, nem quer saber, o que é.

Para lá dos jogos de bastidores, do confronto partidário e do politiquês, era bom que, ao menos em Coimbra, começasse a ganhar forma uma outra filosofia, que se abstivesse de estender a mão a Lisboa e, pelo contrário, favorecesse, com ideias, com iniciativa e com criação de riqueza, o desenvolvimento nacional. Eu acredito que a cidade tem as pessoas e as competências para o fazer. Falta apenas que a necessidade, ao invés de as derrotar, lhes aguce o engenho.

Interessa pouco perguntar o que o Governo pode fazer por Coimbra. Até porque já todos sabemos a resposta. Por mim, acho que é tempo de perguntar o que Coimbra pode fazer, não pelo Governo, mas pelo país. Ao ponto a que chegámos – e colocando as coisa de outra forma - antes de chorar sobre o leite derramado, o tempo é de arregaçar as mangas e de passar, isso mesmo, à ordenha.

25.10.10

Bons costumes


Cumpriu-se no último Sábado o congresso distrital do PS Coimbra. Dele se retiram duas notícias essenciais. A primeira, a de que os dois candidatos chegaram a acordo quanto à composição da próxima Comissão Política Distrital, apresentando uma lista de consenso, liderada pelo presidente eleito e ali empossado, Mário Ruivo. A outra, a de que o presidente cessante, derrotado nas eleições, mantém a impugnação judicial do sufrágio, não se conformando com o resultado, apesar daquele acordo. Confusos? Não é razão para menos.

O horizonte de um acordo entre as duas listas concorrentes começou a traçar-se, publicamente, no decurso da última semana. E a possibilidade da sua concretização ganhou um novo fôlego ao início da manhã de Sábado quando, em pleno congresso, Mário Ruivo desafiou Victor Baptista nesse sentido. As horas seguintes vieram confirmar o acordo. Mas não sem um particularismo bizarro, daqueles a que o deputado Victor Baptista já nos habituou: integra a lista de Mário Ruivo, mas não lhe reconhece a liderança; aceita ser presidente da mesa da Comissão Política Distrital, mas acha que a sua eleição é ilegal. Um pouco como a rábula do aborto e a caricatura de Ricardo Araújo Pereira ao professor Marcelo: “é proibido! Mas pode-se fazer! Mas é proibido! Se fizer o que é que me acontece? Nada! “. E assim por diante…

Ora, dita a experiência que mais vale um bom acordo do que uma má demanda. Mas impõem os bons costumes que, feito o acordo, termine a demanda. Dito de outra forma: se eu dever dinheiro a alguém e contra mim for instaurada uma acção judicial, qualquer acordo sobre o pagamento da quantia em causa, determina a desistência da referida acção. Isto é o tipo de coisa que qualquer pessoa de bons costumes – e de boa fé – percebe. Mas não é essa a opinião do deputado Victor Baptista. Para ele, é uma questão de princípio fazer um acordo com a mão direita e impugnar as eleições com a mão esquerda. Como é uma questão de princípio participar num Congresso e entregar um protesto a contestar-lhe a legitimidade, tudo de uma assentada. Eu acho que isto não é princípio nenhum. E acho mesmo que é o fim.

Fica-nos o exemplo – e a paciência – de Mário Ruivo, que para além de se ter disposto a um acordo, apelou à consciência do presidente cessante, para que pusesse a impugnação de lado. Victor Baptista, acha, todavia, que o congresso é proibido. Mas pode-se fazer! Mas é proibido...

18.10.10

Bons ventos


Porque de Coimbra também sopram bons ventos, é dia de felicitar a Escola Secundária D. Maria. Pela nem sei que vez consecutiva, sagrou-se primeira no ranking nacional de Escolas Públicas o que, na prática, significa que os seus alunos obtiveram a melhor média nos exames de acesso ao ensino superior. Ainda que daqui a uns anos uma parte deles se arrisque a não saber onde meter o canudo, por agora, estão de parabéns eles, está de parabéns a escola e, já agora, que me perdoem o bairrismo, está de parabéns Coimbra.

Mas não são os únicos. Gostei particularmente de ouvir a dra. Maria do Rosário Gama (declaração de interesses: tenho o prazer de a conhecer) dizer o que, de resto, tem dito mais vezes. Sente-se honrada pelos resultados mas ressalva: “A escola está inserida numa zona urbana de meio económico médio alto e os alunos têm apoios extracurriculares como é o caso de explicações, tal como acontece na maioria das escolas dos grandes centros, uma realidade que é bem diversa noutras zonas do país.” A isto acresce, segundo a Directora, o esforço e o acompanhamento dos professores da escola, a quem acaba por endossar a maior parte dos méritos. Porque gostei de a ouvir? Porque a sua postura não é comum.

Todos os dias ouvimos nas televisões ou nos jornais quem fuja às responsabilidades e seja incapaz de assumir, com grandeza, os seus fracassos. Quem, por outro lado, contemple o sucesso do alto grandiloquente da sua singular existência. São raros, cada vez mais, o que se sabem colocar no seu lugar.

Recordo-me, a propósito, de uma história antiga, que ouvi contar recentemente a um amigo, também de Coimbra. Uma formiga e um elefante correm pelo deserto (ela a “cavalo” nele, claro) e a dada altura a formiga olha para trás e exclama: olha a poeira que nós levantámos! Ora, a reacção da dra. Rosário Gama ao prémio da “sua” escola diz bem que, mesmo em sentido figurado, ela se parece muito pouco com uma formiga. Sendo que o assunto, por se passar em Coimbra, merece uma segunda nota.

O exemplo que nos chega do D. Maria é não só de uma geração de gente qualificada – ao nível do melhor que há no país – mas também, quero crer, de pessoas que sabem respeitar os outros e que, em especial, se sabem dar ao respeito. Quem ainda não desistou de Coimbra sabe o quanto precisamos disso.

12.10.10

Honra aos vencidos

Eu já perdi eleições. Mais do que uma vez, até. E não gostei nada que tivesse acontecido. Graças a isso, porém, aprendi duas coisas: que os astros não se conjugaram especialmente, predestinando-me às vitórias, no dia em que cheguei ao mundo; e que aprender a perder com dignidade seria, para os desafortundados como eu, um elementar manual de sobrevivência. Posso dizer que não me tenho saído mal.

Descobri cedo, embora com marcado pesar, que sou um cidadão mediano, com desgraçada tendência para a mortalidade. E confesso que isso tem sido da maior serventia: deixei de conduzir em excesso de velocidade, durmo oito horas por dia, tento não apanhar sol na moleirinha e evito, por via das dúvidas, andar de montanha russa. Não que isso me realize especialmente (talvez até faça de mim um chato!), mas como não posso apelar às constelações para me manter inteiro, conforto-me ao menos com estes rituais e vou-me sentindo feliz, pela mera circunstância de andar por cá.

Por outro lado, descobri que perder com dignidade tem pouco a ver com o apelo às vitórias morais. Quando se perde, perde-se mesmo, e não se aprende a perder ficcionando-se uma vitória, ainda que moral. “Ah e tal, eu era o melhor, os outros é que não perceberam!”.. Até mesmo porque nenhuma eleição serve para decidir quem é o
melhor. Mas isso é outra história.

A verdade é esta: perde-se quando houve menos pessoas a votar em nós do que no adversário, ponto final. E a partir daí, o melhor é meter a viola no saco. A dignidade(externa) advém daí e um outro tipo de dignidade (a interior) vem mesmo antes disso. Vem, digamos, nos preliminares: quando se concorre porque se acredita, com bondade, no que se está a propor, é suportável, apesar de tudo – e digno – perder. Caso contrário(e esse é o tipo de derrota que nunca tive), caso se concorra apenas “para ganhar”, o que é muito usual, admito que perder seja mesmo desagradável ou, digamos, anti-climático. É talvez, também, se quiserem, uma questão de romantismo.

Ora, no passado Domingo, o candidato Mário Ruivo saiu vencedor de umas eleições internas, tornando-se Presidente da Federação Distrital do PS de Coimbra. Por seu turno, o candidato Victor Baptista saiu derrotado das mesmas eleições, abandonando o lugar que ocupava há quase uma década. Ademais, cumpre dizer que nenhum dos dois é um ser sobrenatural predestinado aos holofotes da glória e que a ambos seria exigível que, se perdessem, se comportassem com dignidade. Um deles, eu sei que tem essa consciência. Aliás, há coisas que aprendemos juntos. O outro, bem, o outro, nem por isso.

6.10.10

Horizontes


Cumprem-se os últimos dias de campanha na federação distrital do PS Coimbra. Por esta altura, vale a pena lamentar algumas perdas de estribeiras, mas sublinhe-se, em especial, a normalidade dos meses que passaram. Para tal terá contribuído, é certo que em doses diferentes, a urbanidade de alguns, mas também a simples, prosaica mesmo, cautela de outros. Diferentemente do que sucedeu há dois anos, e usando uma metáfora recente, são já poucos os que arriscam praguejar contra uma ventoinha.

Talvez por isso, é possível observar que, hoje, as manifestações dos militantes se dividem, cada vez mais, entre dois registos: um afirmativo e um outro - vagamente contrariado. Num certo sentido, às manifestações de apoio a Mário Ruivo, contrapõem-se agora os, digamos, apenas subscritores da candidatura de Baptista. E alguns destes, “ilustres” sobretudo, adoptam aos poucos um discurso auto-justificativo, como que sugerindo, entre dentes, a inevitabilidade, quase metafísica, da posição que tomaram. Ele é a “crise”, ele é a “lealdade”, ele é uma muito própria concepção de “solidariedade”, que já me entristeceu e que agora apenas me diverte. No meio disto tudo, está bom de ver o que está, afinal, à vista de todos: cheira a fim de regime, para os lados da Oliveira Matos.

Estou absolutamente convencido da eleição de Mário Ruivo, no próximo dia 9 de Outubro. E já nem me perderei a enunciar as razões do meu apoio, todas amplamente expendidas, no decurso dos últimos dois anos. Diferentemente, apetece-me pensar no próximo dia 10 de Outubro, primeiro dia do seu primeiro mandato, como presidente da federação do Partido Socialista de Coimbra. Precisasse ele do meu conselho – que não precisa! – dir-lhe-ia apenas que esse será o dia em que os militantes do PS reconhecerão a probidade do seu percurso, a firmeza do seu carácter e o mérito das suas ideias. Mas que, daí em diante, será posto à prova, como nunca no passado.

Há um partido para organizar e colocar ao serviço das secções e dos militantes, com transparência. Há um programa político para afirmar, na vanguarda das Políticas Locais, mas também na defesa do Estado Democrático e Social em Portugal. Há para erigir, quase dos escombros, uma nova relação de confiança com os eleitores do Distrito. E, como se não bastasse, há para resgatar a própria imagem de Coimbra, que alguns reduziram à dimensão paroquial que é, diga-se afinal, a dimensão dos seus próprios, e estreitos, horizontes.

21.9.10

A ajuda do público


O presidente da República prepara-se para promulgar um diploma que atribuirá às autarquias competência para determinar o encerramento, ou não, das chamadas “grandes superfícies”, nas tardes de domingo e nos feriados. Depois de avanços e recuos vários, lá se entendeu que as câmaras municipais, pela sua proximidade às comunidades, pelo seu conhecimento “do terreno”, estariam em melhores condições para avaliar se, sim ou não, devem as “grandes superfícies” competir, sem quaisquer restrições, com o comércio dito tradicional.

Confesso que, quando ouvi a notícia, me lembrei de Coimbra e antecipei a felicidade do dr. Encarnação por, finalmente, tomar nas mãos o destino da cidade. Logo ele, que tanto lamenta a interferência do poder central, teria aqui uma oportunidade de ouro para concretizar parte dos seus planos, tão injusta e frequentemente interrompidos pela existência malévola de um Governo democraticamente eleito. E comovi-me, pois, com esse horizonte: enfim sós, Coimbra, o dr. Encarnação e um céu estrelado.

É por isso que as últimas notícias sobre o assunto me deixam triste e defraudado. Pelos vistos, não está nos planos da câmara de Coimbra tomar posição sobre a concorrência entre as grandes superfícies e o comércio tradicional. Diz-nos o seu vice-presidente que prefere, em alternativa, referendar o assunto. Ou seja, no seu subido entendimento, são os consumidores que devem decidir o que querem, em ambiente de total “liberdade”. Melhor dito, para a câmara de Coimbra, a melhor forma de regular o mercado é, nem mais, nem menos, perguntar-lhe para onde vai.

Os que continuam a achar que o poder local não se compadece com devaneios ideológicos, encontram neste episódio muito sobre o que falta discutir, a propósito, especialmente em Coimbra.

A crédito do referendo, apaixonadas considerações sobre a democracia participativa e a modernidade na governação local. Ao longe, muito ao longe, arrebatadas posições sobre a imensa sabedoria popular. Extraordinário esforço para iludir a óbvia conclusão que se retira deste assunto: incapaz de responder com acerto à pergunta que lhe é colocada, a câmara de Coimbra prepara-se para pedir, afinal, a ajuda do público.

13.9.10

Tanto tempo



Entrei no Conservatório aos 14 anos, por iniciativa própria. Não entrei cedo e, talvez por isso, não me aguentei por lá, muito além dos 18. Entre o final da adolescência e a entrada na faculdade, a disciplina que o Conservatório impunha estava longe de ocupar as prioridades de um jovem mediano. Isso e uma duvidosa vocação para o bel canto acabaram, à época, por me afastar da Sé Velha – pelo menos durante o dia! - lá onde funcionava o, também velhinho, conservatório de Coimbra. Pode dizer-se que o Conservatório perdeu um sofrível tenor, para ganhar um admirador militante.

Acho que nunca me esqueci das primeiras aulas, dentro de um cubículo que antes tinha sido uma casa de banho. Mas, sobretudo, não me esqueço de como – mesmo naquelas condições – professores, funcionários e alunos desempenhavam, com enorme dignidade, a sua missão. Fizeram-no de tal forma que os governos e executivos municipais sucessivos se permitiram, simplesmente, ignorar a urgência de uma nova casa para o Conservatório. De facto, a qualidade do trabalho pedagógico e artístico desenvolvido, sempre soube iludir as suas limitações de base. E, sobretudo, fez com que poucos se lembrassem de perguntar como seria se em condições, ao menos, razoáveis.

Demorou tempo, demasiado tempo, o novo Conservatório. Da Sé Velha, primeiro, para uma solução mais ou menos itinerante, depois, passaram talvez vinte anos até que se resolvesse o problema, agora, com as novas instalações integradas na Quinta das Flores. E se quisermos ser sérios, vale a pena assumir que nem há um só culpado pelo atraso, nem há um principal responsável pela inauguração.

A política habitual depressa se encarregará de abençoar o Governo, por um lado, a Autarquia pelo outro - e os respectivos partidos -, que juntos cortarão a fita, proferindo eloquentes discursos sobre a vanguarda e o progresso. Eu prefiro dizer que ambos se limitarão a cortar a meta de mãos dadas, com, pelo menos, duas décadas de atraso. Permitam-me que o diga: de parabéns, só mesmo o Conservatório. Por se aguentar de pé, sem sair do tempo, durante tanto tempo.

Hoje, no Jornal de Notícias.

7.9.10

Uma casa na árvore


No princípio, o ventre materno. O que, de facto, importa abunda nesse regaço original: alimento e aconchego, não necessariamente por esta ordem, garantem uma existência que se basta a si própria, uma harmonia quase perfeita. Logo depois, os primeiros passos, os primeiros brinquedos. Antes mesmo de nos darmos conta, estamos com um micro machine nas unhas ou com uma casa de bonecas, para brincar – e disputar – com os primeiros amigos.

Lembro-me que, aos cinco anos, me entretinha a “construir” cabanas, entre os pés da cama e uma cómoda que lhes ficava em frente. Um telhado de lã, creio que um cobertor amarelo com um índio desenhado, assegurava o par de metros quadrados que era o meu castelo no mundo. Uma fortaleza que somava ao alimento e aconchego primeiros, a companhia amontoada, mas feliz, de alguns amigos.

Duram pouco esses tempos. Cumpre-se o liceu, entra-se na faculdade e suspira-se por um quarto à séria, com um sofá e uma televisão, num apartamento com serventia de cozinha. Não é possível ser-se mais feliz. Lá longe – de preferência muito longe – o ventre materno manifesta-se por depósitos bancários, sacos de roupa lavada e tupperwares de carne assada. Acha-se que é possível – e desejável – viver assim, para o resto da vida. Mas não é.

Depressa começam a tratar-nos por “você”, metem-nos um cartão de crédito no bolso, desconfiam se usamos a camisa por fora das calças (o que só volta a consentir-se depois dos quarenta e cinco) e perguntam-nos se já casámos ou se temos filhos. Começamos a pensar que somos ridículos e que não vale a pena resistir: chegou a hora de vivermos a sério. E de nos levarmos a sério.

Rapidamente damos por nós num grande condomínio, a tratar por tu madeiras como o jatobá, a cerejeira e o pinho nórdico. Antes de piscarmos os olhos estamos ao volante de um gigantesco monovolume e a sair do supermercado carregadinhos de fraldas. Um dia, encontramos os nossos filhos debaixo de um cobertor aos pés da cama e percebemos duas coisas: que são felizes e que não têm salvação possível.

É por isso que aconselho todos a experimentar o Treehouse Hotel que, no próximo dia 10, abre ao público no Jardim Botânico, em Coimbra. É uma pequena casa na árvore, engendrada por uma equipa multidisciplinar de arquitectos, biólogos, paisagístas, entre outros, que pode ser reservada como um quarto de hotel. E para quem, às vezes, ainda gostaria de se enrolar num cobertor amarelo, aos pés da cama, com um prato de bolachas e dois amigos, parece ser um sucedâneo socialmente tolerado. Já para não mencionar que algumas das madeiras que tratamos por tu ganham, no Jardim Botânico, uma perspectiva inteiramente nova.

Mais informação sobre o assunto, aqui.

31.8.10

Coimbra do Choupal


(Fotografia: Daniel Tiago)

Sou um frequentador intermitente da mata do Choupal. A utilização que lhe dou é, sobretudo, desportiva e sabe a balança lá de casa como é intermitente, também, a minha dedicação ao desporto. Ao arrepio das melhores recomendações, integro o grupo dos que raramente se aguentam uma temporada inteira e assim, ao longo do ano, vou alternando entre a corrida e a batata frita. Isto vem pouco ao caso, é certo, mas sempre me serve de caução para comentar uma reportagem que li, precisamente sobre aquela mata nacional.

Creio haver, pelo menos, duas abordagens diferentes ao Choupal: a dos que o não conhecem senão como símbolo poético da cidade dos estudantes; e a dos que, de facto, o conhecem e utilizam como espaço de contacto com a natureza, para lazer ou para a prática desportiva. Sendo que, pela experiência que tenho – apesar da intermitência, já visitei a mata umas centenas de vezes – as mais divulgadas reivindicações, mesmo algumas declarações de amor, partem menos dos utilizadores comuns do que dos, mais distantes, adeptos da tal poética coimbrã. É por isso que me interessa, sobremaneira, a referida reportagem.

Da sua leitura resulta, em especial, uma ideia: o que importa aos verdadeiros utilizadores da mata, aos que lhe conhecem os trilhos e o cheiro, são coisas simples, que podiam ser resolvidas depressa e melhorariam, imediatamente, a qualidade do espaço. Na maioria das opiniões relatadas, reclama-se a limpeza dos caminhos, o reforço das pontes de madeira, a conservação dos espaços desportivos. Ali não parecem ter lugar algumas preocupações mais líricas, coisas da grande política, daquelas que se perdem, habitualmente, nos corredores do poder e que, amiúde, ofuscam o que realmente interessa.

Ocorre-me que para lá das questões existenciais, já seria muito interessante se o rancho de instituições que administra o Choupal – Conservação da Natureza, Instituto da Água, Instituto de Desporto de Portugal, Câmara Municipal, só do que me vem à memória – abdicasse do respectivo quintal e encontrasse uma administração única, responsável e responsabilizável, para aquele espaço. Bem sei que é mais fácil traçar objectivos estratégicos, sofisticados planos de acção, tonitruantes parcerias do que, por exemplo, pegar numa trincha e pintar os campos desportivos do Choupal. Mas, afinal, é por isso que alguns se dedicam a administrar e outros, modestamente, a ser administrados.

23.8.10

A questão Central



A ideia de instalar uma central fotovoltaica na Alta Coimbrã, capaz de suportar os custos de iluminação pública naquela zona da cidade, merece aplausos, à partida. Embora pelo caminho se confrontem interesses vários, entre a preservação do património e a sustentabilidade energética, não se sabendo, ao certo, em que ficaremos, à chegada.

É assim com todos os projectos que ousam afastar-se dos cânones habituais e afectar, claro, a ordem estabelecida. O que não tem mal nenhum, diga-se desde já. A inovação é natural, como natural é a ponderação dos seus riscos, ainda que pelo simples temor da mudança. Sendo por isso mesmo que projectos como o da central fotovoltaica na Alta Coimbrã se hão-de sujeitar, quer ao escrutínio político, quer à validação técnica, nos domínios ambiental, patrimonial ou outros necessários para que a novidade não seja um apaixonado passo em frente…para o abismo. E é aqui, normalmente, que as coisas descambam.

No caso concreto, a saga começou pelo parecer desfavorável do IGESPAR, fundado no receio de que a colocação de painés no muro de suporte da Rua da Alegria tenha um impacto visual negativo, no casco histórico da cidade. E continua, ao que vejo, com uma arrebatada tomada de posição da Quercus, que afiança ser o risco de afectação da zona historica “residual”, ficando a central “encoberta visualmente pelos edifícios da contígua Avenida Emídio Navarro”.

Ora, a este propósito, gosto de me colocar ao lado dos que acreditam, apenas, num de dois caminhos distintos: ou bem que se confia na legislação e no desempenho das instituições que cuidam da sua aplicação; ou bem que, pelo contrário, se procura a sua substituição, no quadro do que a democracia permite. Tudo o mais, e sobretudo uma certa tendência para opinar sobre o rosário alheio, confesso que me tira do sério.

Neste caso, interessa-me saber o que pensa a Quercus, no domínio ambiental e interessa-me saber o que pensa o IGESPAR, nos domínios patrimonial e arquitectónico. O que um e o outro pensam sobre o métier do vizinho, não me interessa rigorosamente nada. Aliás, o país em geral estaria melhor se cada um de nós fizesse mais aquilo que lhe compete. Coimbra, em particular, teria muito a ganhar se olhasse mais para (por) si própria e menos, muito menos, para os vizinhos do lado.

17.8.10

A regra


Nos últimos dias foi conhecida a expulsão de vários militantes do partido socialista, creio que duzentos no total, sendo vinte deles no distrito de Coimbra. A sanção, prevista nos estatutos e aplicada pela jurisdição distrital dos socialistas, explica-se com a participação daqueles militantes em listas opositoras às apoiadas pelo PS, no âmbito das últimas eleições autárquicas. Nada a obstar, no plano jurídico. A sanção é, aliás, necessária. Mas fica muito por dizer, quase tudo, no que à política diz respeito.

A militância num partido político não se confunde com uma profissão de fé ou com a preferência por um clube de futebol. Estas, sendo diversas entre si, convergem nos valores sobretudo afectivos ou espírituais em que radicam, não reclamando, por isso mesmo, uma particular racionalidade e, sobretudo, não conferindo aos seus “associados” um verdadeiro estatuto. Muitos de nós nascem, aliás, com religião e clube de futebol já definidos. O mesmo não se passando – espera-se – com a militância partidária.

Quando se adere a um partido, adere-se voluntariamente a uma declaração de princípios e a um certo legado histórico, na expectativa do seu aprofundamento. E adquire-se um estatuto, que confere o direito e o dever de contribuir, activamente, com sentido crítico, para esse aprofundamento. Sendo essa solenidade que torna tão estranho o impulso de quem, num determinado momento, é militante de um partido e, no outro, resolve bater-se, nas urnas, contra esse exacto partido. Ou pelo contrário.

Seria estranho se os partidos, em regra, fossem espaços de discussão política, generosa e qualificada, ao invés de serem os simulacros de debate que, muitas vezes, o próprio parlamento evidencia; seria estranho se a regra fosse comportarem-se os partidos e, em especial, os seus dirigentes, como fiéis depositários de algum princípio, que não o da sua particular existência; seria estranho se, por exemplo, em Coimbra, ser socialista de cartão passado comprometesse, em regra, com a efectiva prossecução do socialismo - se há até quem se dedique a converter social-democratas para a conquista de municípios pelo PS!

A regra, demasiadas vezes, é não haver regra. E por isso, a alguns, de vez em quando, aplica-se a regra.

11.8.10

A uma só voz


Virgílio Caseiro deixou de ser maestro e director artístico da Orquestra Clássica do Centro. O sucedido, que já corria à boca pequena, ainda pode reverter-se, segundo o próprio, “se as forças vivas políticas da cidade conseguirem estabelecer uma relação de diálogo preferencial com o governo central e, muito concretamente com o Ministério da Cultura, que tenha como episódio final o reconhecimento da OCC como orquestra regional ou de equivalente estatuto e apoio.” Eis o que está em causa, portanto – a falta de apoio do Governo ao projecto.

Com esta mensagem, ficam “as forças vivas” convocadas para o objectivo proposto pelo maestro. E ficam convocados, em especial, o PS e o PSD (sejamos claros!) para reclamar junto do Governo o apoio e a consideração que a Orquestra Clássica do Centro há muito merece. Tarefa que não é menos do PSD – que comanda a autarquia – do que do PS, que sustenta o Governo. Este é, claramente, um daqueles casos em que a guerrilha partidária deve convolar-se numa só voz, sem cinismos, sem reserva mental, em defesa de Coimbra.

Ao PS, neste caso como em tantos outros, cabe articular entre a Orquestra e o Governo uma modalidade de apoio que faça justiça a dez anos de trabalho artístico e pedagógico, qualificado e ininterrupto. E é exigível que o faça institucionalmente, ao mais alto nível, com seriedade, sem intermediários, sentado numa mesa de reuniões, estabelecendo objectivos e prazos, à margem de cochichos e conversas de corredor.

Ao PSD, se puder e souber, cabe desmontar uma ideia que, pouco a pouco, se foi instalando na cidade: a de que a câmara de Coimbra agradece, abençoa e alimenta todos os conflitos entre o Governo e as instituições da cidade, explorando-os em seu proveito, num exercício da mais rudimentar politiquice. O dr. Encarnação que se disponha a dançar o tango, senão com o eng. Sócrates, ao menos com a ministra da Cultura. Não lhe ficaria mal o exercício e, por uma vez, mostraria disponibilidade para colocar os interesses de Coimbra acima dos seus interesses e do seu partido.

Não sou daqueles que acham que Coimbra merece loas do Governo, por ponderação curricular. Antes creio que o caso da Orquestra Clássica do Centro é um daqueles em que uma justa avaliação de desempenho corre, nitidamente, a seu favor.

2.8.10

Um perfeito álibi

Num país como o nosso, onde o Estado continua a ditar o essencial do que acontece, a visita de um membro do Governo é sempre encarada com um misto de reverência e excitação. Em Portugal a iniciativa privada é uma ficção, a independência é uma lenda e a liberdade situa-se a meio caminho entre a estultícia e a verdadeira impertinência. Resulta pois que, se formos suficientemente tontos ou vagamente impertinentes, talvez encontremos o impulso necessário para fazer o que nos apetece, sem dar Cavaco a niguém. De outro modo, sempre a república (com minúscula) encontrará por onde nos comprimir a vontade e o melhor mesmo será recebermo-la, penitentes, como uma benção celestial.

É o que acontece, o mais das vezes, quando um ministro, um secretário de Estado, ou qualquer outra aproximação divina, desloca a sua excelência por esse Portugal afora, promovendo roteiros e peregrinações de toda a sorte, sempre coroados por essa modalidade institucional do autógrafo que é o muito respeitável “descerramento de placa”. Vem este despropósito a propósito da vinda da senhora ministra da cultura à plácida cidade dos estudantes. E, fazendo fé no que reporta a imprensa, da encantadora afirmação de que Coimbra é “uma cidade que tem uma tradição cultural fantástica, com grandes intelectuais e pensadores, mas que agora terá sido ultrapassada por Lisboa, Porto e até por outros centros urbanos do país”.

Ora, à expectativa pueril com que sempre se recebe um membro do Governo, há-de corresponder, pelo menos, uma especial cortesia, como que um unguento a prometer, se não a cura, ao menos a extrema-unção. E mesmo admitindo, neste caso, um arremedo de confrontação política entre os planos governamental e autárquico, o resultado ficou, como aliás era previsível, muito aquém do desejado.

Face à obscenidade política de se pretender justificar todas as insuficiências coimbrãs com o desfavor do Governo, não pode este trazer a Coimbra senão uma mensagem positiva e medidas concretas, sob pena de continuar a dar ao PSD um perfeito álibi.

Publicado hoje, no Jornal de Notícias.

27.7.10

Um falso obituário



Uma reportagem recente do suplemento Ípsilon, no jornal Público, abre com a frase “Coimbra não sabe para onde vai – e por isso não vai a lado nenhum”. Não traz nada de novo, o escrito. Seja pela narrativa; seja pelo estilo; seja apenas pelo teor. Numa pretensa pele de visitante, alguém escreve sobre a cultura coimbrã, apressadamente, para chegar, por fim, ao princípio. De facto, se o texto abre com a tirada do “não vai a lado nenhum”, fecha com um afirmativo “ponto final”. Uma sentença, grave, solene, de morte.

São poucos os verdadeiramente livres naquilo que pensam, escrevem e dizem. A maior parte de nós parte da conclusão para construir um arrazoado que a legitime. É isso, afinal, que eu próprio faço, habitualmente. É o que faz a maior parte dos mortais. E é o que fez a responsável pela reportagem do Público.

Nada de estranhar. Não tivéssemos nós um punhado de certezas para esgrimir nesta vida e a incerteza remeter-nos-ia sempre para a lucidez da loucura. Mas adiante.

Pretende, pois, a reportagem, o que se pretende de costume: que Coimbra parou no tempo e que a ampulheta, simplesmente, se partiu. Daí em diante, tudo o que se faz é uma espécie de ficção local, como que um epitáfio, já fora da história. Coimbra acaba por ser retratada como um doente terminal e ao que de bom se vai fazendo – também na cultura – dá-se glórias de paliativo.

Reacções – muitas – nas redes sociais e blogues da cidade, há-as para todos os gostos. De um lado, a incontida revolta, perante o que se considera uma peça jornalística preconceituosa, ansiosa por provar que em Coimbra não se passa nada; do outro, os que lhe encontram ainda um sentido pedagógico, um convite à contrição que não fará mal nenhum, quer aos agentes culturais, quer aos poderes públicos. Num certo sentido, uns e outros, terão razão. Mas interessa pouco que continuem a falar, uns para os outros.

Se a reportagem do Público faz lembrar um daqueles falsos obituários, a antevisão da morte tem quase sempre o condão de nos fazer sonhar com o que falta fazer. Ponto final? Não, reticências.

13.7.10

Começo de conversa


Em Outubro próximo, teremos eleições para a Federação de Coimbra do Partido Socialista. Victor Baptista candidata-se a um quarto mandato, fazendo-o, mais uma vez, pela “última vez”. E enfrenta a recandidatura de Mário Ruivo, este agora na expectativa de converter em vitória o resultado de há dois anos, que se cifrava já em quarenta por cento dos votos expressos. Estarei ao seu lado, como há dois anos e esta é, para todos os efeitos, a minha declaração de interesses. Formal e definitiva.

Se há coisa que me incomoda na política são aquelas pessoas que “não fecham portas”, na ilusão de que, por essa via, as abrem a todas; os que ficam nas meias palavras, ou nas meias tintas, à espera para ver no que dá. Piores mesmo, só os que são capazes de defender tudo e o seu contrário, dependendo das estações do ano, conforme (o que lhes) calha. Os tempos, na política em geral, no PS em particular e em Coimbra, muito especialmente, reclamam clareza, convicção, seriedade e coerência. Tudo o mais concorre apenas para o pântano de que desgraçadamente tentamos escapar, vai para uns anos valentes.

Nada que impeça, porém, a cortesia, a simples educação, no decurso da campanha. E nada que iniba o debate de ideias, de boas ideias, suficientemente explícito para sugerir aos militantes caminhos distintos, que valham o sufrágio. Até porque, aliás, uma coisa não vive sem a outra.

A banalidade programática mascara-se, habitualmente, pela vulgaridade das campanhas. E a “madeirização” da política não deixa espaço, até mediático, para grandes debates.

Depois das eleições de Outubro, era bom que a Federação do PS Coimbra passasse a ser vista como um espaço de urbanidade política, onde a divergência fosse uma fonte de coesão, ao invés de ser factor de um belicoso conflito; era bom que se lançassem as bases de uma nova praxis partidária, assente no mérito, na competência e na defesa do interesse comum; era bom, para não dizer óptimo, que o PS Coimbra passasse a ser contribuinte líquido de um Distrito que se afirme pelos bons exemplos. Esse será, já, um bom começo de conversa.

9.7.10

Regresso ao futuro?

O Marty McFly chegou ao "futuro" com o Delorean, faz hoje 3 dias...



6.7.10

Um eixo


Há pessoas que, não nos sendo íntimas, se cruzaram connosco, desde sempre. E, nessa medida, acabam quase por sê-lo. O Maestro Virgílio Caseiro é, para mim, uma dessas pessoas.

A primeira memória que tenho dele está ligada ao facto de ter sido professor de música de um dos meus melhores amigos, éramos alunos do Colégio S. José, na Conchada, mesmo à beira da que – julgo – seria a casa do Maestro (não o sendo já, isso é certo, e explicarei adiante porquê). Estávamos em meados da década de 80 e o meu amigo, hoje doutorado nas medicinas, deu ali os primeiros passos rumo ao velhinho conservatório, ainda na alta coimbrã.

Lembro-me, depois, de o Maestro Virgílio ser tema recorrente nas conversas de outros amigos, seus alunos no curso de Educação Musical da Escola Superior de Educação de Coimbra. Sempre como uma personalidade singular, admirada, incontornável músico e pedagogo.

Mais tarde, por circunstâncias várias, passámo-nos a encontrar “sob a batuta” da dra. Emília Martins, a incansável directora da Orquestra Cássica do Centro. Sucedendo também, de há tempos a esta parte, sermos vizinhos, o que que explica a certeza de que, pelo menos actualmente, o Maestro não reside na Conchada.

Ora, escrevo este texto no dia da Cidade de Coimbra, breves horas antes da homenagem que o Município lhe prestará. E ocorre-me dizer que este conjunto de episódios, dizendo pouco sobre mim, dizem tudo sobre o Maestro.

Eu sou um dos muitos que, em Coimbra, viram as suas vidas cruzadas, directa ou indirectamente, pela presença do Maestro. Ele é, verdadeiramente, um eixo na vida da cidade e na própria biografia dos conimbricenses. À míngua de referências, isso, só por si, justificaria o tributo.

29.6.10

Vão sem mim


A última semana chegou com a caricata notícia de que podemos ver suspensas as obras do Metro Mondego. Por entre altercações mais ou menos envergonhadas, omissões estratégicas e meias respostas, ficámos sem saber se a dita obra está ou não em crise. E, ao que parece, continuamos a não saber.

Foi assim, ao longo dos últimos anos, com várias coisas em Coimbra. Uma ameaça velada e um ensaio de exaltação popular; sempre seguidos da consumação do sinistro e de uma cinzenta resignação, apenas pontuada, à mesa do café, por pragas ao Governo e loas aos “velhos tempos”, quando tinhamos “força” em Coimbra.

Na língua inglesa, utiliza-se a expressão “good girls go to heaven, bad girls go everywhere”, para exprimir a ideia de que o bom comportamento não leva a lado nenhum. O que equivale a dizer que há momentos em que é preciso dar um murro na mesa, por vezes, subir mesmo para cima da mesa, e gritar, gritar muito, para que nos ouçam. Este parece ser um desses momentos.

Sim, percebemos que a crise tem que ser combatida e que o mirífico PEC, (Programa de Estabilidade e Crescimento), ironicamente homónimo de um outro Pacto Europeu, impõe contenção e austeridade. Mas caso alguém pretenda comprometer o Metro Mondego em nome de um qualquer desígnio nacional, cá estaremos para averiguar, ponto por ponto, qual o valor financeiro da decisão, qual o seu impacto na redução do défice e quais os critérios de ponderação usados, no confronto com cada um dos investimentos públicos actualmente em curso, do Minho ao Algarve.

É que haverá muito mais para explicar se, por mero acaso, duas décadas volvidas, muitos estudos, promessas e conselhos de administração depois, o projecto Metro Mondego se transformar numa expressiva caricatura da irresponsabilidade do Estado.

Em Coimbra, aguardar pacientemente pelas informações oficiais, pelos fundamentos, pelas confirmações e posições definitivas, tem sido apenas um paliativo, sempre a conduzir à alienação, a uma miserável e deprimente apatia colectiva e ao total rebaixamento da cidade. Desta vez, não contam comigo. Ou, como dizia a canção, vão sem mim, que eu vou lá ter.

Hoje, no Jornal de Notícias.

22.6.10

A Alta em alta


Coimbra tem discutido, com recorrência, o seu Centro Histórico. Na origem, uma genuína preocupação com a salubridade das casas, com a sobrevivência do comércio, com a conservação de edifícios e monumentos, com a afeição histórico-cultural da cidade, talvez. Mas também, admita-se, uma certa agenda política, quando não político-partidária, que se alimenta de um tema clássico, para progredir, pé ante pé, no seu caminho. Nem sempre na posse dos dados todos do problema; nem sempre conhecedora, sequer, dos seus elementos essenciais; por vezes, limitando-se a reproduzir velhos clichés e desfocando, de modo radical, a questão. Sugere-se a ideia de que o “poder” – na autarquia, na administração central, na própria Universidade – logrará todas transformações necessárias, decretando a ressureição da Alta.

Ei-lo, um dos equívocos da democracia: votamos de quatro em quatro anos, os políticos que façam resto. Pouco ocorre que não caiba à política qualquer mediação com a divina providência.

No caso do Centro Histórico de Coimbra, não é a política que fará o essencial. E mesmo a reabilitação urbana, por si só, não produzirá as mudanças sociais, económicas e culturais necessárias. É a sociedade civil que, em boa medida, as ditará. E, a propósito, Coimbra parece ter boas razões para se animar.

Basta uma volta pelas Ruas do Quebra-Costas e Fernandes Tomás para perceber o que digo: o Mercado Quebra-Costas e o bar com o mesmo nome, a associação Arte à Parte, a Mau Feitio, o Fangas, a recém inaugurada Companhia Portugueza, são contributos muito significativos para a revivescência da Alta, nas suas várias dimensões. Mais do que à política – sem prejuízo de alguns, bons, projectos PRAUD – é aos cidadãos, à sua criatividade, ao seu empreendedorismo, que ficaremos a dever uma nova relação da cidade com o Centro Histórico. Pouco a pouco, a barbearia “O Carlos”, o mini-mercado Lopes, o café Oásis ou a mercearia Serenata parecem ter encontrado, afinal, a quem passar o testemunho.

16.6.10

Último suspiro


Solta-se um último suspiro na Ceres. A cinquentenária fábrica de cerâmica, em Torre de Vilela, prepara-se para a completa liquidação e para lançar no desemprego quase duas centenas de trabalhadores. Dir-se-á que é mais uma, apenas mais uma, de muitas fábricas a fechar. Dir-se-á, também, que como as outras, segue o caminho normal, desejável até, desde que as trombetas soaram para decretar a inexorável falência dos sectores tradicionais. Dir-se-á, ainda, que o emprego em Coimbra há-de encontrar-se, algures, entre uma repartição de finanças e um laboratório de partículas . É a voz corrente, em especial para os lados da 8 de Maio. Mas não é verdade.

A história da Ceres não se confunde com as outras, muitas outras infelizmente, que têm fechado nos últimos anos. A Ceres não é sequer um fábrica que tenha sucumbido, simplesmente. Pelo menos desde 2005 que a Ceres está, como diriam os antigos, entrevada. E a verdade é que talvez tenha chegado a hora de, finalmente, a deixarmos partir.

Sucede, no entanto, que ao contrário do que já li na imprensa, não estamos perante um caso de eutanásia industrial. Se quisermos ser sérios, nem o governo, nem o sindicato, poderão ser responsabilizados pelo ocaso da Ceres. A cerâmica de Torre de Vilela é, apesar de tudo, um exemplo de boa e esforçada concertação, quer do governo, quer do sindicato, com a administração da empresa, ao longo de mais de cinco anos. Malfadadamente, sem um final feliz.

Mas também não é verdade que a Ceres siga o caminho desejável, num tempo em que – com uma temporária concessão às vuvuzelas - parece faltar lugar para quem não se dedique a produzir foguetões ou comprimidos de libertação prolongada. Estender uma passadeira vermelha às chamadas indústrias com “elevada incorporação tecnológica” não implica, necessariamente, puxar o tapete aos sectores tradicionais. Desde logo, porque a incorporação tecnológica não se mede pelo produto final, mede-se antes pelo processo produtivo.

Finalmente, a ideia de que em Coimbra somos demasiado qualificados para meter as mãos no barro, carece, quer de sensatez, que de confirmação estatística. De sensatez, porque cada vez mais serão os empregos a escolher-nos, não o contrário. De confirmação estatística, porque o nosso superavit de qualificações – com especial incidência ao nível das humanidades – não será mais apelativo num laboratório de astrofísica do que no departamento de recursos humanos de uma fábrica de azulejos.

8.6.10

Portugal dos Pequenitos



Tento escrever com alguma graça, a propósito dos setenta anos do Portugal dos Pequenitos. Resistindo a contar uma velha história de infância; evitando um comentário sobre o Estado Novo; poupando a trocadilhos sobre a pequenez lusitana quem leia, ao menos, um parágrafo do que aqui escrevo. E resta-me pouco, quase nada, para dizer.

As coisas não são elas próprias e ponto final. Não existem, sem mais nada, como na canção. Os setenta anos do Portugal dos Pequenitos não assinalam, apenas, nem sobretudo, sete décadas de existência, pedra sobre pedra. A existência é sempre qualquer coisa “em relação”. E é por isso que não é possível evocar o parque lúdico-pedagógico fundado por Bissaya Barreto sem aludir à infância, sem convocar o passado, sem provocar o presente.

Porque o Portugal dos Pequenitos é, para milhões de pessoas, uma construção pessoal. À razão de 300 mil visitantes ano, falamos de milhões de crianças, também de pais e de avós, cada qual com uma memória distinta do dia em que avistou os Jerónimos a partir da Pátio das Escolas. Os últimos setenta anos são, pois, um somatório de dias, de horas, por vezes de instantes, gravados na biografia de cada um.

Porque o Portugal dos Pequenitos não deixa de ser, também, uma evocação do glorioso império ultramarino e uma alusão ao Portugal regionalista, também pequenino, simples, pitoresco, ambos tão do agrado do Estado Novo. Ambos a poderem ser contemplados do cimo da Cabra, conveniente maquete ao serviço da governação.

Porque o Portugal dos Pequenitos, se coloca Portugal em perspectiva, não deixa de o fazer, também, em relação a cada um de nós. É possível encontrar ali uma imagem depreciada do país e dali mesmo desfiar esconjuras várias à suposta pequenez nacional. Mas é possível, também, observar um povo que se agiganta sobre a pátria e lhe reserva, desse modo, um destino bem mais animador.

Em tempo de crise, vale a pena colocar as coisas em perspectiva. Talvez seja tempo de abandonar a constante caricatura do país, pelo menos enquanto não formos capazes de traçar um razoável retrato de nós próprios.

1.6.10

Pela positiva


Os jornais estão cheios de más notícias. Reflexo do país, dirão alguns. Luta desesperada pela maior quota de leitores, dirão outros. Ambas as coisas contribuem, julgo, para um país que se escreve a preto e branco e se vai desenhando, diariamente, em tons de cinza.

Em Coimbra não é diferente. Seja porque, de igual forma, se atravessam tempos severos, do ponto de vista comercial. Seja porque a insegurança, o definhamento industrial, a pobreza, merecem ser reflectidos pelas redacções e acabam por sê-lo, dia após dia. E, mesmo apesar da melíflua publicação de alguns eventos politico-sociais (o que também se compreende, em ambos os sentidos), acaba por gerar-se um ciclo de desânimo, que não levará a lado nenhum.

Há doutrinas distintas quanto à classificação da comunicação social como um quarto-poder ou como um contra-poder, mas ambas reconhecem a poderosa influência dos media no conjunto da sociedade e o seu concurso para o próprio desenvolvimento. Num certo sentido, se o discurso da tanga, na boca dos políticos, abala a economia; esse registo, como timbre editorial, não terá melhor resultado.

Se a isto acrescentarmos que os habituais comentadores, em cuja veste me coloco, tendem a sobrevalorizar os desaires, mais do que os sucessos, está criado um caldo de cultura perigoso, uma atmosfera de sinal negativo.

Assim, e em jeito de redenção, apetece-me saudar a distinção Silver Award, em Roterdão, dos designers portugueses Ana Boavida e João Bicker, do ateliê coimbrão Bicker e Associados, no âmbito do Festival Europeu de Design.

Pela positiva, apetece-me dizer que o Mercado Quebra Costas, em Coimbra, é uma das mais bem sucedidas iniciativas de cultura urbana dos últimos anos e merece a maior atenção de todos.

Pela positiva, apetece-me saudar a criação do Parque de Jogos Tradicionais Pinho Dinis da responsabilidade do Agrupamento de Escolas da Pedrulha.

Pela positiva, apetece-me elogiar o Ruben Alves e o trabalho que está a desenvolver no Real da Conchada, revelando-se um exemplo para a comunidade em redor.

Pela positiva, acho que os jornais de Coimbra deviam ter todos uma secção de “boas notícias”. Para consumo moderado, mas obrigatório.

2.3.10

A mudança assim-assim

André Freire e José Manuel Leite Viegas, do ISCTE, promoveram, segundo li, o estudo “mais exaustivo que compara as opiniões e percepções entre eleitores e eleitos jamais feito em Portugal”. Mas as suas conclusões, diga-se, estão inscritas na consciência do regime, muito antes de serem estampadas pelos investigadores de Lisboa. A confiança dos portugueses na democracia bateu fundo, é o que se conclui. Chegou mesmo ao nível mais baixo desde 1985.

Os eleitores sentem-se mal representados, não confiam nos políticos e não confiam, sobretudo, nos partidos. Sentem-se enganados, mas sentem-se, sobretudo, cansados. A renda da casa, as contas da água e da luz, a escola dos miúdos, eis o que os ocupa. Ocupa-os mais do que a “salvação do regime”, coisa em que não acreditam e que, verdadeiramente, já nem esperam. E como se ocupam disto tudo, ficam sem tempo para se pre-ocupar. Talvez o país político ainda não tenha percebido que está a falar sozinho. Perceberá, talvez, quando ficar sozinho: é cada vez maior o número de portugueses que sai do país para procurar emprego.

Em Coimbra, a agonia da Ceres e da Poceram, como o fecho da Real Cerâmica, parecem, de facto, não apoquentar ninguém. Os jovens que todos os anos abandonam a cidade, à procura de emprego – muitos para Cantanhede, Aveiro ou Viseu – não recebem do município mais do que a proverbial nostalgia coimbrã. A carestia da habitação e a degradação da baixa, para além de animarem umas palestras inconsequentes, não merecem a apresentação ou execução de uma única medida concreta. O facto de a cidade estar a ser espoliada dos seus serviços públicos, com fundamentos que suscitam as maiores reservas, abre caminho à manipulação do PSD, ao mesmo tempo que suscita reacções tímidas, na oposição. Não é difícil imaginar que o tal estudo do ISCTE, feito em Coimbra, não lograria resultados diferentes.

Mas talvez uma parte da solução resida, exactamente, na capacidade de melhorar o sistema à escala local. A maior proximidade entre eleitos e eleitores, a melhor percepção de eficácia das medidas tomadas, a participação dos cidadãos nos processos de decisão, tudo concorre para que ao nível municipal seja, talvez, mais fácil, melhorar o sistema. Assim os políticos saibam ser responsáveis, coerentes e credíveis.

Ao PS, no Concelho de Coimbra, caberá escolher entre ser parte activa numa verdadeira mudança ou ser cúmplice de uma mudança na continuidade. Ser cúmplice daquilo a que alguns chamarão uma “mudança responsável”. Há quem diga que, às vezes, é preciso mudar qualquer coisa, para que tudo fique na mesma. Eu não quero uma mudança assim. Muito menos uma mudança assim-assim.

23.2.10

Invictus


Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

william Ernest Henley

Vamos falar de habitação


O bastonário da Ordem dos Engenheiros veio a Coimbra para manifestar a sua descrença quanto ao regime da reabilitação urbana. “Lobbies e jogos de interesses”, eis o que lhe vem à cabeça quando pensa no assunto. Não é o único. De facto, basta olhar para Coimbra para perceber que a expansão urbanística e a reabilitação urbana avançam, estranhamente, em velocidades distintas.

Enquanto florescem os Jardins do Mondego, fenece a Alta Coimbrã. Enquanto se erguem condomínios na Portela, a Baixa vai ruindo sobre si. Quanto a isto, meia dúzia de lugares comuns e a recomendação velada de que nos sentemos, à espera que passe. Abate-se um silêncio pesado sobre Coimbra, de cada vez que o assunto é a política de habitação. E é preciso – é urgente – que deixe de ser assim.

Mas por que razão cresce desenfreadamente a construção nova em Coimbra – como no resto do país, acrescente-se – enquanto o centro se degrada, acoitando delinquentes, fazendo campear a insegurança e retirando, sobretudo aos jovens, a oportunidade de uma habitação condigna, a preços controlados? A explicação, em termos gerais, é simples: o fenómeno da construção civil e o seu desenvolvimento, confundem-se com a própria história do poder local democrático. No caso de Coimbra, para além da especulação e das suas consequências no ordenamento urbano, estamos a forçar o abandono dos mais jovens, não só por falta de emprego, mas também porque são poucos, muito poucos, os que podem comprar uma casa na cidade. Coimbra ameaça tornar-se um imenso condomínio privado, ao alcance de meia dúzia de famílas e vedado à generalidade dos conimbricenses.

Chegados aqui, temos a responsabilidade colectiva de decidir qual o caminho que pretendemos seguir: se o de uma política urbanística que se limita a caucionar o que os especialistas chamam windfall gains – a valorização exponencial dos solos, por via de novos loteamentos, sem verdadeiros “custos de produção”; se a a opção por distribuir, afinal, oportunidades de habitação condigna para todos, negando o pendor casuístico da maior parte dos instrumentos de ordenamento em vigor e servindo o bem-estar dos cidadãos, em geral. Eu escolho, sem reservas, este segundo caminho.

Para começo de conversa, é imperativo travar fundo nos novos projectos de loteamento e assumir, desde já, a proridade de gerar uma oferta de arrendamento público, que faça renascer a cidade, lá onde só restam escombros e o patrimonio imobilário de “ninguém”. Defender, com coragem, estes e outros desígnios, é o único caminho sério para os socialistas, quer na discussão do PDM, quer na proposição de um verdadeiro Plano Local de Habitação. Trata-se de escolher entre a Coimbra das oportunidades para todos e a Coimbra das oportunidades para os mesmos de sempre. Escolher, afinal, entre a Coimbra do passado e uma Coimbra com Futuro.

9.2.10

O poder é solúvel


Eu gosto do professor Marcelo Rebelo de Sousa. A sério que sim. Tenho uma predilecção por gente inteligente, com um pensamento estruturado e com ideias próprias. São poucos, no espaço público – particularmente na política - os que reúnem essas condições. Há muitos espertos que, no contexto certo, desfilam pela passarela das vaidades que alimentam o mundo. Normalmente, desconexos no pensamento, prolixos e incapazes de verter duas ideias em português correcto, ainda que sem veleidades de estilo. Porém, e na maior parte dos casos, deviam ater-se a abrir o piano – alguns apenas a carregá-lo – ao invés de se aventurarem pelo marfim, logo a quatro mãos, como é costume fazerem.

E é por isso que, apesar dos pesares – o professor não é do meu partido, está longe de ser um comentador isento e fala sobre demasiadas coisas ao mesmo tempo – nutro por ele uma certa admiração. Em parte porque, ao contrário do que acontece com as cabeças duras, acredito ser sempre possível mudar, pelo convencimento, um homem inteligente.

Li, pois, com atenção, a entrevista que deu no passado sábado a um jornal diário regional. E, particularmente, o modo como comentou o desempenho do presidente da Câmara de Coimbra. Dessa leitura, sai reforçada a ideia de que o professor é, de facto, um homem inteligente.

É que, nem mesmo eu – que às vezes me dedico a não dizer coisa nenhuma em duas milenas de caracteres – seria capaz de um nó cego como o do professor, quando teve que comentar os méritos do nosso presidente da Câmara. “Carlos Encarnação virou Coimbra para o século XXI, recriando um centro político e ultrapassando clivagens muito fundas entre direita e esquerda.”, foi o que disse Marcelo Rebelo de Sousa na ocasião.

Ora, o que é engraçado não é só perceber que esta fórmula, no caso concreto, ilude a incompetência política do dr. Encarnação e o definhamento a que deixou chegar a cidade de Coimbra sem, ainda assim, o deslustrar. Engraçado é perceber que o professor, não apenas conseguiu isso, como desenvolveu uma fórmula apta a comentar todos os autarcas sem obra feita, mas a quem deva ainda algum tipo de simpatia.

Resta perguntar se os desempregados de Coimbra se devem sentir particularmente comprazidos pelo etéreo contributo do dr. Encarnação para a viragem do século. Ou se a tal ultrapassagem de clivagens entre Esquerda e Direita deve compensar o facto de, à nossa volta, nos ultrapassarem, pela esquerda e pela direita, todos os dias. Mas isso não preocupa nem o professor Marcelo, nem o dr. Encarnação.. É o que acontece quando já nem se acredita que o poder é, de facto, solúvel.

2.2.10

Melodias sublimes



Encheu-se de povo o Gil Vicente, faz na próxima quinta-feira uma semana. Não era uma assembleia magna, nem um comício, nem o lago dos cisnes, nem coisa do género. Era Coimbra às ordens da sua consciência, Coimbra a dizer que está viva e que desperta quando é preciso, quando vale a pena, quando tem mesmo que ser. A Saúde em Português convidou vários músicos da região para um concerto de apoio às vítimas no Haiti e desafiou os conimbricenses a estar presentes. A resposta não podia ter sido mais esmagadora: uma casa cheia e um concerto inesquecível.

Naquela noite – com um frio de fazer bater os dentes – não foi a Coimbra resignada, nem a Coimbra da lamúria, que sairam à rua. Um por um, os que estiveram presentes no Gil Vicente – e muitos dos que não puderam estar - foram aqueles que não se conformam: nem com as injustiças, nem com a indiferença. Olhos nos olhos, os olhos que se cruzaram no foyer denunciam uma cidade de gente solidária, gente de convicções, gente que se reconhece e que se surpreende, até, com a sua própria força. Como eu, creio que foram muitos os que, vendo aquela casa cheia, percebendo que foi possível arrecadar mais de sete mil euros para ajuda humanitária, sentiram um calafrio. E perceberam como têm força os que se juntam pelas causas certas.

É sempre assim. Como um vulcão adormecido durante séculos e que, de repente, acorda para arrasar tudo à sua volta. Também como um terramoto, que em escassos segundos põe termo a uma quietude milenar e nos recorda que nada é eterno. Em Coimbra, a resposta ao terramoto no Haiti foi o sobressalto da sua própria natureza: a Coimbra que esteve no Gil Vicente não foi a Coimbra que desiste, foi a Coimbra que acredita; não foi a Coimbra que se apaga no tempo, foi uma Coimbra que se ergue e existe. Uma Coimbra generosa, solidária, mas também uma Coimbra de cultura.

Brigada Victor Jara, Gerações, Cordis, Inês Santos, Rui Pato, entre outros, só uma amostra da cidade das artes que fervilha por aí. Que fervilha e que fervilhará, até ferver de vez e nos lembrar que não é possível “viver habitualmente”, todos os dias, para todo o sempre. Ao contrário do que muito vaticinam, e apesar de tudo, Coimbra mantém uma especial capacidade de nos surpreender. E lembra-nos que o silêncio é o leito onde se deitam as melodias mais sublimes.

25.1.10

Responsabilidades


Parece que vai fechar a delegação de Coimbra da agência Lusa. Nada de especial se pensarmos que, nos últimos anos, perdemos as Direcções Regionais da Economia, do Instituto Português da Juventude, da Agricultura ou do Instituto de Desporto de Portugal. Nada que surpreenda se pensarmos que, em simultâneo, fecharam portas a POCERAM, a Real Cerâmica ou a Marcopolo, só para dar alguns exemplos. Mais uma maçada, portanto, que torna estas primeiras linhas especialmente enfadonhas, é certo, mas altera pouco o que já sabemos: Coimbra equilibra-se, a custo, sobre um plano demasiado inclinado.

A respeito, vão-se ouvindo as vozes do costume. Umas, que a culpa é do Governo, que não gosta de Coimbra. Outras, que a culpa é da Câmara, que tem afundado a cidade. Ambas, na simplicidade, quase pueril, dos seus argumentos, interessadas em fazer valer as normais disputas entre PS e PSD, mais do que em revelar as razões fundas da nossa agonia. Ora, não pretendo eu, na “simpatia” da minha “juventude”, cavar mais fundo esse terreno. Mas, contando com alguma condescendência, atrevo-me a dizer duas coisas: uma, que têm ambos razão. Outra, que não têm razão nenhuma.

Tenho pouco jeito para teorias da conspiração e obrigo-me a resistir-lhes, vai para uma mão cheia de anos. Mas começo a ficar impaciente com esta sucessão de “lamentáveis coincidências”, talvez conjugações astrais, que apoucam Coimbra semana após semana e que, se não têm culpados, terão pelo menos autores. Não me parece interessante integrar o assunto na categoria das coisas que ninguém faz, mas que aparecem feitas. E vai sendo tempo de pedir responsabilidades, quer ao Governo, quer à Câmara. Se não têm culpa, que encontrem os culpados. Se não carregam a culpa toda, pois que a dividam entre si.

Mas o apuramento dos culpados, mesmo o seu sacrifício na fogueira, não resolveria, por si só, o problema. Governo e Câmara, para este efeito, são reflexo de uma cidade que não mudará enquanto não assumir, ela própria, as suas responsabilidades. Cabe-nos a todos, de todas as idades e em todos os partidos, defender os interesses de Coimbra mas, sobretudo, afirmá-la por inteiro, com excelência, em várias frentes: na ciência, na economia, na cultura e – muito especialmente – na política. Nenhum vento será favorável, se não soubermos para onde vamos. E se, depois de sabermos, não formos mesmo.

12.1.10

Um outro mundo é possível


Não é genial a afirmação de que um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes. Na melhor das hipóteses, oblitera que a adesão partidária impõe já uma certa conformação ideológica, limitadora da “soberana” vontade de quem o compõe; na pior delas, desbrava o perigoso caminho da prepotência das maiorias que, se devem ser respeitadas, é duvidoso merecerem grande sacralização. Não sendo, pois, uma afirmação genial, nem por isso deve deixar de ser repetida. Um partido deve reflectir a vontade dos seus militantes, sim. Mas dos militantes todos. E é aí que começa o problema.

É muito comum achar-se que a democracia é uma forma de legitimação do poder pela maioria. É menos comum perceber-se que a democracia, ela própria, deve, não apenas catalisar o aparecimento de várias correntes de opinião, mas também dar expressão aos anseios de cada uma delas, como parte de uma realidade plural e em permanente mutação. Não admira – é mais fácil gerir uma facção do que um partido inteiro. E é mais fácil manter uma facção por sobre a aniquilação moral das restantes.

Em Coimbra, nos últimos anos, o Partido Socialista tem-se demitido de ser um partido inteiro. Em certo sentido, deixou-se sequestrar por divisionismos redutores. E, pelo caminho, traiu a sua própria natureza. Na história do PS Coimbra, houve um dia de menor inspiração em que alguém se lembrou de dizer que o PS se dividia entre a “gente que pensa” e a “gente que faz”. E a partir desse dia, o PS Coimbra passou a distrair-se com esse folhetim, mais do que com a política, propriamente dita.

Por mim, creio que o PS, no Concelho de Coimbra, deve afirmar-se como um “partido que faz”, um partido “de terreno”, já que nenhuma organização sobrevive sem decisões, sem mangas arregaçadas e sem proximidade entre quem lidera e o conjunto dos seus militantes. Mas isso não significa que o PS, no Concelho de Coimbra, não deva ser também um “partido que pensa”, na perspectiva de que a reflexão, a análise, a espessura do discurso político são condição da sua sobrevivência enquanto instituição credível, fiel aos seus princípios estruturantes e propulsora da sociedade como um todo. Por outro lado, achar-se que “quem faz não pensa” e que “quem pensa não faz” é, essencialmente, um preconceito.

Dissociar estas duas realidades implica, ou uma grande dose de ignorância – o que é lamentável – ou uma certa queda para a manipulação – o que é perigoso.

Em todo o caso, enquanto o “partido que faz” pretender aniquilar o “partido que pensa”, e vice-versa, estaremos sempre condenados a um partido que “pensa que faz” ou a um “partido que faz que pensa”. Um outro mundo é possível!

8.1.10

1 ano


Foi há um ano, o primeiro post.

5.1.10

Cidade criativa

Passámos os últimos dez anos a ouvir falar de tecnologia. Em especial, de como um choque da dita cuja nos salvaria da penúria, sujeitos que estávamos a um mercado globalizado, economicamente mais competitivo, embora também socialmente mais desafiante.

Nesse contexto, a qualificação dos recursos humanos, a inovação tecnológica, seriam o caminho, sobretudo para os que, recusando o atalho do dumping social, não tinham mais por onde lograr, a um só tempo, crescimento económico e emprego. Acrescentaríamos competitividade à economia nacional, inovando nos processos produtivos, ao invés de remunerar o povo operário com malgas de arroz.

Mais coisa menos coisa, foi isso que o engenheiro Guterres verteu na agenda de Lisboa, nos idos de 2000; como foi nesse trilho que, com o tonitruante choque tecnológico, o eng. Sócrates arrebatou o coração dos portugueses, corria o ano da graça de 2005. Simplesmente, não estou certo de que a ciência encerre, por si só, a inovação de que a economia precisa e, a esse respeito, a verdade é que a última década está longe de anunciar algo de inspirador.

Olhando para Coimbra, começo-me a perguntar se o facto de andarmos há vinte anos para fazer um parque tecnológico é razão de lamento, ou se, pelo contrário, nos devemos animar por o choque tecnológico, no nosso caso, nunca ter passado de um formigueiro.

É que se o objectivo estratégico, o tal que vem da agenda de Lisboa, passa por introduzir inovação na economia, não estou certo – embora tenha estado no passado – de que o caminho seja pela via da ciência, mais do que pela via da cultura. Julgo perceber que a economia precisa, sobretudo, de criatividade. E se Coimbra pretende ser uma cidade criativa, estará mais perto se investir na cultura, valorizar o seu património, for consciente da sua história e sonhadora do seu futuro. Bem mais perto do que se estiver condenada a repetir, mal, tarde e sem convicção, alguns manuais de “modernidade”.

Para todos os efeitos, é duvidoso que os novos negócios, novos produtos, novos processos produtivos que procuramos, estejam ao alcance de um pós-doc em astrofísica, mais do que de um empresário com a quarta classe que goste de olhar as estrelas, numa noite de Verão.