20.10.09

Coimbra, sem ambição


O povo de Coimbra foi às urnas e reelegeu Carlos Encarnação. E eu, depois de pensar muito no assunto, concluí o seguinte: o povo está satisfeito com o dr. Encarnação, não tem vontade de mudar e por isso lhe renovou o mandato. Ponto final? Não. Ponto e vírgula.

O povo, de um modo geral – não apenas o de Coimbra – está satisfeito com a vida que leva: satisfeito com o emprego, satisfeito com a casa, satisfeito com o carro, satisfeito com o LCD, satisfeito com as férias, satisfeito até com a sogra. O que não quer dizer que esteja feliz.

Gostaria mais do emprego se o patrão acordasse o tal aumento, de uma vez por todas; mais do carro se o pudesse levar, finalmente, à inspecção; mais do LCD se não lhe pesasse a prestação a 8 de cada mês; mais das férias se não tivesse que levar tachos com arroz de moelas para a praia; mais da sogra se a senhora fosse naquela excursão para Benidorm e não voltasse. Gostaria mais da vida que leva e seria, seguramente, mais feliz. Não sendo possível, ainda assim, sente-se muito “satisfeito”.

A satisfação portuguesa não equivale à felicidade, confunde-se, sobretudo, com a resignação.

Se no Brasil – ouvi dizer que não só – há um político que assumiu como slogan de campanha “rouba mas faz”, o slogan “não faz mas também não estraga” promete embalar Coimbra por muitos e bons anos. A cidade não quer um autarca. Prefere, a milhas, um notário.

Claro que esta tese traz encravada a minha condição de socialista e, nessa medida, de derrotado, despeitado até, na última pugna eleitoral. Mas, já agora, permitam-me que, de quando em vez, carregue aos ombros o que devem ser, hoje, os três mandamentos de um socialista de Coimbra: varrer discretamente o bafio para trás das portas, fazer oposição criativa ao PSD e escrever sobre a cidade em português fluente, o que até dispensa de o fazer com brilho ou mesmo com graça. Ora, assim seja e já me dou, prosaicamente, por “satisfeito”. Um dia seremos felizes.

7.10.09

Certo por linhas tortas



Quando há dias discutia a limitação de mandatos com um amigo, ele dizia-me que essa limitação nega a essência da democracia. Na sua perspectiva, a soberania popular é radicalmente sábia e, assim, condicionar-lhe as decisões, impedindo um candidato de o ser indefinidamente, não só abala as fundações do regime como desrespeita a liberdade de juízo dos eleitores.

Percebi que, genuinamente, não lhe ocorria a frequência com que, em particular no contexto autárquico, há votos que se determinam de formas bizarras. Ou que há presidentes de câmara que se comportam como verdadeiros xerifes, concentrando poderes “democráticos” de uma forma que envergonharia muito ditador: a polícia, as licenças, o emprego, os bombeiros, a comunicação social, o clube de futebol, as associações culturais, tudo depende, em muitos lugares deste país, de um homem só, do presidente, do presidente do concelho, com "c", claro.

Mas também os há que, não sendo ditadores, acabam por se instalar, sendo essa a segunda razão que justifica a limitação de mandatos e a que, concedo, melhor encaixa no perfil do dr. Carlos Encarnação.

Primeiro, porque nenhum dos itens que utilizei acima para caracterizar os ditadores locais confere com a prática do dr. Encarnação: a sua polícia municipal é uma simples força de reboque, o que é a única forma de repressão, mesmo contra os criminosos, que se lhe conhece; quanto às licenças, sabe-se que é bastante benevolente – tanto aprova a construção dos poderosos, como autoriza modestos planos de jardinagem no Mondego; ainda a propósito, não se lhe conhecem grandes cumplicidades com o futebol local, cujos dirigentes conhece apenas vagamente; por outro lado, mesmo que fosse à bola, é sabido que os amigos da cultura não o acompanhariam; é ainda certo que, em matéria de protecção civil, com excepção do resgate de gatídeos, tem sempre a generosidade de remeter os louros todos para o Governo; conceda-se que também não é o emprego a municiar-lhe o regime, porque em Coimbra, façamos mais uma vez justiça ao dr. Encarnação, não há emprego; e, finalmente, quanto à comunicação social, convenhamos que este texto lhe faz ressaltar uma cristalina isenção.

Mas depois ainda, não pertence o dr. Encarnação à categoria dos ditadores porque a Coimbra que construiu não é uma ditadura. É, quando muito, uma dita-mole. Um recatado canteiro privativo. A queda para a jardinagem do dr. Encarnação fez de Coimbra um daqueles canteiros de flores que até podem ser bonitos, mas que não deixam de ser uma natureza aprisionada pelo capricho, uma energia frustrada, uma promessa que não se cumprirá, jamais.

Ao contrário do meu amigo, que apesar de tudo ainda se ofende com a limitação de mandatos, o dr. Encarnação já tinha imposto, a si próprio, esse limite. Acabou por mudar de ideias, mas a verdade é que a democracia pode mesmo mudar-lhe a sorte e eleger Álvaro Maia Seco como o próximo presidente da câmara de Coimbra. Para ambos os efeitos, uma razão, pelo menos, assiste ao meu amigo: ainda há momentos em que o povo escreve certo por linhas tortas.

1.10.09

Pero que las hay, las hay!

Li há dias (creio que ontem) um artigo de opinião num jornal local, que sugeria haver em Coimbra quem, deliberada e persistentemente, a mantenha sob uma gestão de vistas curtas.

Terá havido e haverá ainda, quem a queira como uma quintinha, um jardim recatado cuja ordem estabelecida não se deve comprometer. Haverá uma eleite, transversal, que não pretende a mudança. Sentir-se-á, talvez, ameaçada ela.

Será?

29.9.09

Coimbra de Verdade

O eng. Sócrates ganhou folgadamente as eleições legislativas. Em primeiro lugar porque liderou durante quatro anos um bom Governo; em segundo lugar porque, a dada altura na campanha, já ninguém acreditava que a dra. Ferreira Leite pudesse liderar o que quer que fosse. A candidata do PSD, achando que o secretário-geral do PS era um vendedor de sonhos, reagiu prometendo aos portugueses um pesadelo. Se para Sócrates a crise era um obstáculo a ultrapassar rapidamente, para a dra. Ferreira Leite ela era uma justa punição pela estultícia dos portugueses, algo em que deveríamos empreender, penitentes, por muitos e bons anos. A julgar pelos resultados, ficámos a saber que um calvário não é lá grande promessa eleitoral.

Mas se a dra. Ferreira Leite se desiludiu com os resultados, já o dr. Carlos Encarnação há-de andar muito satisfeito. É que uma imaginária derrota do PS nas legislativas seria, para o recandidato do PSD à câmara municipal de Coimbra, uma verdadeira dor de cabeça. Se o PS tivesse perdido as eleições, o dr. Encarnação ainda teria a maçada de deitar a mão a uma lapiseira e a uma folha de papel pardo para explicar aos conimbricenses o que pretende fazer pela cidade. Assim, basta-lhe um maço de lenços de papel para carpir os supostos desamores do Governo e continuar a sua cruzada pela essência romântica da Lusa-Atenas. Está visto que o candidato Encarnação planeia mais 15 dias de paso doble e tango argentino. Mas cabe a alguns de nós garantir que não o fará com uma rosa entre os dentes.

Entre dentes, sempre direi, já agora, que o Partido Socialista deve reflectir longamente sobre os dois deputados que perdeu, no Distrito de Coimbra. Ou nos dez mil votos que perdeu no Concelho de Coimbra, desde as legislativas de 2005. Mas essas são contas de um outro rosário, que há-se ser desfiado, serena e educadamente, como é costume fazerem os socialistas de Coimbra. E a verdade é que nas autárquicas de Coimbra – como aconteceu nas legislativas, aliás – o PS tem um excelente cabeça de lista. Sendo até maiores do que poderíamos imaginar as semelhanças entre os confrontos Sócrates-Ferreira Leite e Álvaro Maia Seco-Carlos Encarnação.

Como Sócrates, Álvaro Maia Seco representa o sonho de uma cidade nova, capaz de se reinventar e de conquistar uma liderança natural, fundada na competência, na ambição e no trabalho. Já Carlos Encarnação evoca uma Coimbra atrasada e paroquial, a Coimbra do preconceito, altiva, fechada e sombria. Afinal, uma cidade calvário que não creio, todavia, seja a Coimbra de verdade.

22.9.09

Menos, professor Mota Pinto

Paulo Mota Pinto salvou a visita de Ferreira Leite a Coimbra. Sem ele, a passagem da candidata “da verdade” pelo centro de Portugal teria sido uma desgraça. Mas com um empurrãozinho do novo professor do PSD, a visita a Coimbra acabou por ser, mais impressivamente, desgraçada.

O PSD teima, de facto, em ser um partido de professores – Cavaco, Marcelo, Borges, Rangel, Mota Pinto, para enumerar apenas alguns - e é notável como, de tempos a tempos, nos recorda por que devota razão continua a sê-lo. É que, realmente, aos professores do PSD parece estar reservado dizer asneiras com um ar reverencial e palpitar, mesmo assim, no coração do povo. Mas estas reminiscências do Portugal pobrezinho e humilde, suspenso pela verdade unívoca do “senhor professor”, dizem muito sobre a cultura política do PSD de Ferreira Leite.

A verdade da dra. Ferreira Leite – que é a verdade toda do mundo – caber-lhe-ia folgadamente nos bolsos. Mas como os tailleurs não têm bolsos, sempre vai contando com a algibeira do professor Mota Pinto, que ainda por lá guarda um cantinho, entre os seus já habituais“trunfos de campanha” e, diz ele, as chaves do automóvel.

Em Coimbra, por exemplo, o professor Mota Pinto levou a mão ao bolso e brindou-nos com uma mão cheia de verdade. Despiu a pele de magistrado, travestiu-se de advogado oficioso e defendeu que o juiz Rui Teixeira é “Muito Bom”. Antecipando pois o que, fosse o PSD Governo, passaria a ser o modelo de “avaliação dos juízes”: num Governo de Ferreira Leite, os juízes seriam, obviamente, avaliados por si. O que não teria mal nenhum porque o seriam sempre de acordo com a verdade que carrega, por empréstimo, na algibeira do professor Mota Pinto. E se contássemos com a externalidade positiva de podermos extinguir o Conselho Superior de Magistratura rapidamente, então essa medida, do lado da poupança, seria de um alcance democrático inexpugnável.

A sério, a sério, apetece-me dizer o seguinte: sendo estas as lições do professor Paulo Mota Pinto, da próxima vez que levar a mão ao bolso, que as deixe por lá e pegue ao invés nas lendárias chaves do carro. É que, com franqueza, Coimbra já tem professores que chegue. E em matéria de democracia, para minha surpresa confesso, ainda estamos uns furos acima.

15.9.09

Bem-vinda

Ana Jorge começou a sua campanha, em Coimbra, com uma declaração de princípios. Na era dos soundbytes, a Ministra da Saúde, agora cabeça de lista do PS pelo círculo eleitoral de Coimbra, pôs de lado as trivialidades e ateve-se ao essencial da política. O sentido ético e as grandes causas tomaram o lugar do paroquial filistinismo e, por ora, ficámos a saber que 1. Despirá a pele de Ministra e limitará as suas intervenções, nessa veste, ao que a Gripe A venha a impor; 2. Acentuará a defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) como vértice do Estado Social.

Ana Jorge terá desiludido os que se habituaram à política tipo faísca, àquela forma de estar e dizer que se destina a “marcar a agenda”. Para esses, a política não passa, aliás, disso mesmo: uma narrativa sul-americana, pontuada por clímaxes de paixão, traição e vingança. É a política telenovela que, de todo o modo, nos conforta, já que sempre haverá de chegar ao último dos capítulos. Mas essa não é, evidentemente, diria eu, a cultura da dra. Ana Jorge.

Nestas coisas, haverá quem esteja muito talhado para marcar a agenda. Eu prefiro os que se inclinam, antes, para marcar a História.

Ao clarificar os termos em que conciliará a condição de candidata com as obrigações de ministra; ao antecipar esse código de conduta, Ana Jorge não está, apenas, a justificar a sua posição. Está a dar um sinal a todos os que, ocupando lugares públicos, sempre devem destrinçá-los da sua vida partidária. Está a dizer-nos que percebe o alcance das suas responsabilidades. E que também aceita os limites do seu próprio poder. Respira-se, pois, sem sinais de asfixia.

Já a referência ao SNS tem a virtude de confrontar os que, como o candidato Mota Pinto, têm alergia ao Estado. A liberdade que esses defendem, a liberdade que a dr. Ferreira Leite também apregoa, é a liberdade dos que a podem pagar. Aos outros, aos que não possam pagar, por exemplo, os cuidados de saúde, restar-lhes-á aceder a serviços públicos de 2º classe ou aguardar, de mão estendida, a caridade do Estado. Ferreira Leite até pode não querer privatizar o SNS, mas a passadeira que estende aos privados – uma vertigem de Beveridge para Bismarck – levará a que, no momento certo, já não haja SNS para privatizar.

Ética na política e uma visão de esquerda sobre as funções sociais do Estado. Se o que nos traz é aquilo que parece, seja bem-vinda a Coimbra, dra. Ana Jorge.

13.9.09

Demasiadas vezes

Saber quem vence os debates não é decisivo na política.
Infelizmente, as pessoas mobilizam-se mais pelo ódio do que pelo amor. A vingança prevalece, demasiadas vezes, sobre o reconhecimento.