24.3.09

Vital, Coimbra e a esquerda

Vital Moreira foi meu professor no segundo ano do curso de Direito. Foi dos poucos que teve o condão de me fazer levantar da cama às sete da manhã, com devota regularidade, para assistir, pelas oito, às suas aulas de Direito Administrativo. E gosto de pensar que esse dado biográfico, creio que partilhado, à data, com quase todos os colegas da “ segunda turma”, aqueles cujo nome estava para lá de “Jorge”, me acomoda no grupo dos que não fazem nenhum sacrifício para saudar a escolha do seu nome para cabeça de lista do Partido Socialista às eleições europeias.

Sou, portanto, também, dos que encaram com genuíno entusiasmo a campanha que se avizinha e que acreditam, sem reservas, na candidatura de Vital Moreira como um passo sensível na valorização da vida política nacional.

Porque acredito que faz falta à política portuguesa um regresso às ideias, à cultura e aos valores, interessam-me menos os supostos efeitos da candidatura de Vital Moreira no eleitorado de Esquerda do que me interessam a lucidez e a profundidade com que analisa a encruzilhada europeia. E por aquelas exactas razões, devo acrescentar que também me interessa menos a filiação coimbrã do candidato do que me interessa a convicção de que defenderá, no parlamento, a cidadania europeia e o projecto europeu.

Creio, pois, que só por maldade, talvez também por ignorância - o que não é menos grave - se pode colocar a opção Vital Moreira no plano rasteiro da mercearia eleitoral ou cingi-la ao quadro complexo, bizarro, vagamente bipolar, por vezes, da malfadada afirmação coimbrã.

Quanto a este último ponto - o da afirmação coimbrã - não devo desconsiderar que a cidade enfrenta um devastador sentimento de orfandade, uma agonizante ausência de liderança, a constante confirmação de um rotundo fracasso - na cultura, no desenvolvimento económico, na sua própria identidade - sob os auspícios da mais inquietante comiseração pátria. Uma cidade seca que reage, como uma esponja, à menor gota de esperança .

Mas sejamos claros. Vital Moreira não é pertença de Coimbra, nem o seu mérito decorre, na essência, de qualquer reconhecimento local. Ao invés de “canibalizar”, ao retardador, o mérito dos seus mais ilustres, há uma parte de Coimbra que talvez deva compenetrar-se mais em “descobri-los”, consequentemente, antecipando, com coragem, a nunciatura Lisboeta.

Hoje, no JN.